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Muito obrigado ao Ministro Goidanich pela introdução e pela organização deste seminário. Quero me dirigir à deputada Chris Tonietto e, em seu nome, cumprimentar todos os integrantes da mesa, todos os senhores, senhores embaixadores, colegas, e todas as pessoas interessadas nesse tema, que também nos honram aqui com a sua presença.

Eu gostaria, nesse momento que tenho para me dirigir aos senhores, compartilhar uma pequena reflexão com os senhores, sobre o tema do globalismo, a partir de uma leitura de Nietzsche. No início do livro A Vontade de Poder, que aliás, é um livro que dizem que não existe, pois teria sido composto a partir de fragmentos escolhidos pela irmã de Nietzsche, uma polêmica, aliás, interessante, mas o livro existe. Influenciou, como sabemos, vários movimentos, então é significativo que, logo no início de A Vontade de Poder, Nietzsche diz o seguinte: eu vou contar a história dos próximos duzentos anos. Vou descrever aquilo que está vindo e que não pode mais vir diferentemente – o advento do niilismo. Ele escreveu isso entre o fim de 1887 e o começo de 1888. Então, nós estamos bem dentro da segunda metade desses duzentos anos de história do advento do niilismo. O próprio conceito, em Nietzsche, é extremamente complexo e, inclusive, a própria relação de Nietzsche com o niilismo. No mesmo prefácio de A Vontade de Poder, ele diz: “eu sou o primeiro niilista da Europa, mas, ao mesmo tempo, meio que já deixei de ser niilista e já superei isso”. Então, o pensamento de Nietzsche é, de certa forma, uma descrição desse fenômeno do niilismo e uma superação do niilismo. Podemos, talvez, vê-lo dessa maneira.

Nietzsche também, claro, é famoso pela frase “Deus está morto”, que aliás, não é dele. Há muitas vozes em Nietzsche e essa frase, “Deus está morto”, é pronunciada por um personagem em um determinado fragmento de A Gaia Ciência. É um outro problema também em Nietzsche – problema e solução, talvez – porque você nunca sabe exatamente quem está falando. Mas, enfim, essa ideia de que “Deus está morto” se tornou o postulado central de toda o pensamento posterior e, de certa forma, de toda a história posterior. Sem essa ruptura radical, a meu ver, não se pode explicar nem o marxismo-leninismo, e nem o nazi-fascismo. Ambos esses movimentos partem da rejeição de Deus, da rejeição à chamada moral burguesa, essa ordem moral centrada em Deus, que Nietzsche havia destruído de certa maneira, ou cuja necessária destruição, para uma necessária renovação, ele havia anunciado.

Evidentemente, Marx também é necessário para compreender os dois movimentos, tanto o leninismo quanto o nazi-fascismo. No livro A Ideologia Alemã, Marx e Engels fazem, basicamente, o que faz Nietzsche, só que sem, a meu ver, a mesma sutileza e o mesmo caráter multidimensional, mas a mesma destruição das ideias da moral corrente. Eu acho que uma leitura em paralelo de A Ideologia Alemã e de Genealogia da Moral, por exemplo, de Nietzsche, seria um exercício bastante interessante. Não tive tempo de ver se isso já foi feito e, menos ainda, tempo para tentar dedicar-me a isso. Nem competência teria. Mas, enfim, é só uma direção de pesquisa, que talvez seja interessante. O certo é que o comunismo e o nazi-fascismo dependem da morte de Deus. Dependem do fim do que eu chamaria de o antropoteísmo, que é a concepção do homem como um ser vertical, que se relaciona com Deus e que é filho de Deus. Ambos instauram um antropocentrismo radical, achando talvez que com isso estão, de alguma maneira, libertando o homem. Ambos querem rumar para alguma espécie de Übermensch, o homem socialista, na concepção soviética, ou a própria palavra usada pelos nazistas. Há um parentesco grande aqui. E no entanto, na verdade, nessa falsa libertação, estão escravizando o ser humano.

Aqui nós precisamos nos lembrar, também, de Dostoiévski, no Crime e Castigo, onde o personagem central parte da ideia de que, “se Deus não existe, tudo é permitido”. E se dá mal, nós sabemos, na história. Raskólnikov também é uma espécie, e talvez seja o indivíduo que representa toda essa história posterior do mundo, ou, pelo menos, do Ocidente. Partindo do princípio de que Deus está morto, ele enfrenta toda uma crise a partir desse momento na sua vida, e acaba voltando à fé. Mais interessante também, ou talvez tão interessante, é uma frase do psicanalista Jacques Lacan, que eu encontrei em um importante filósofo marxista, o Slavoj Žižek. Lacan, em certo momento, disse o seguinte: “se Deus não existe, nada é permitido”, embora talvez com uma dimensão diferente, pois não sei exatamente o contexto dessa frase de Lacan. Mas eu, de certa forma, me identifico com essa frase. Eu acho justamente que ela representa o reconhecimento dessa falsa liberdade trazida pela ausência de uma ordem divina, de uma ordem moral. Essa ideia já é vista, um pouco depois, com o moralismo que está dentro do globalismo atual.

Voltando aqui ao nosso Nietzsche, a questão é: “Deus está morto”. Para um cristão, isso não é novidade nenhuma. O Cristianismo é, essencialmente, conviver com esse fato, da mortalidade de Deus, da morte de Deus e, evidentemente, da ressurreição. O próprio Nietzsche é talvez um profeta herético, mas um profeta desse renascimento. É muito interessante olhar as cartas que Nietzsche escreveu no começo do período chamado da sua loucura. Nietzsche tem um colapso, como se sabe, no dia 3 de janeiro de 1889, e nesse mesmo dia ele escreve algumas cartas, sobretudo bilhetes, para amigos e conhecidos, e em algumas delas ele assina como “O Crucificado”, Der Gekreuzigte. Em uma delas, ele diz “Die Welt ist verklärt, denn Gott ist auf der Erde”: o mundo está esclarecido, o mundo está aclarado, porque Deus está sobre a Terra. Em outra carta, que ele escreve para Cosima Wagner, ele pede que ela anuncie “Die frohe Botschaft” – que não é a Embaixada alegre, já que para alguns de nós isso teria um sentido diferente, aqui no mundo diplomático – mas é a Boa Nova, o Evangelho.

Em outras dessas cartas, desses bilhetes, Nietzsche assina como “Dionysos” – Dionísio – que é o principal deus dos cultos de mistérios da Grécia antiga, um deus de morte e de renascimento, frequentemente associado ao Cristo nos cultos sincréticos, ali dos séculos I, II e III. E, curiosamente, quando a gente considera a famosa oposição de Nietzsche entre o apolíneo e o dionisíaco, a tendência é vermos no dionisíaco apenas o lado da celebração da vida, da liberdade, e não a celebração do renascimento, e, portanto, o caráter, digamos, “pré-crístico”, pré-cristão, do culto de Dionísio, que a meu ver, seria mais apropriado e mais completo. De certa forma, Nietzsche se apresenta como o próprio crucificado. Ele se entrega ao seu próprio sacrifício, pregado na cruz do seu próprio ateísmo, que é, talvez, um falso ateísmo.

Ao longo de toda sua vida, Nietzsche se entrega a esse abismo da angústia intelectual, e ele mesmo, acho, se apresenta nos seus livros mais anticristãos como uma figura talvez “paracristã” se você quiser – o “Ecce Homo”, “aqui está o homem”, que é como Pilatos apresenta Cristo antes da crucifixão. Nietzsche anuncia o século XX e o século XXI, acredito, em muitas coisas, em muitos momentos; acho que valeria a pena ler os quatorze volumes da obra completa de Nietzsche atrás desses momentos em que ele anuncia o que nós estamos vivendo. Eu acho que tive a sorte de achar um deles aqui, justamente nos últimos textos de Nietzsche, que é de dezembro de [18]88, começo de janeiro de [18]89, portanto, nos últimos dias antes do colapso e da entrada no que se chama período da loucura. E ele diz o seguinte: “Eu trago a guerra. Não a guerra entre povo e povo. Não entre classe e classe. Eu trago a guerra entre Aufgang e Niedergang – a subida e a descida –, entre a vontade da vida e a vingança contra a vida”. Eu acho que, bom, em primeiro lugar, aqui, Nietzsche já nega de antemão aquilo que ele também, de certa forma, também anuncia, que é tanto a concepção da luta nacional, que daria origem a essa luta entre povo e povo, um pouco a origem da concepção de mundo do nazi-fascismo e nega, também, a luta de classes, evidentemente origem da concepção de mundo do comunismo. Então, talvez, nós possamos ler essa história posterior como essa luta entre o que ele chama de descida e o que ele chama de subida – “Aufgang und Niedergang”.

Também é interessante perguntar quem é esse “eu” que fala. Como eu disse antes, em Nietzsche a gente tem sempre que se perguntar quem é o sujeito, quando ele diz “Ich bringe den Krieg” – “eu trago a guerra”. Esse “ich” não é necessariamente ele como pessoa. É, talvez, a História, o Espírito. Aqui, a gente entra um pouco em Hegel. Enfim, é uma maneira de ler não como um depoimento pessoal, mas justamente como uma quase prosopopeia, digamos, da história posterior. Essa guerra entre a ascensão e o descenso é, talvez, a história do século XX, ou a maneira de ver a história do século XX e desse século XXI, onde nós estamos participando. Bem, nesse mesmo texto, como em muitos outros, Nietzsche prega uma quebra de todos os valores considerados sagrados, que é basicamente o que tanto Lênin quanto os nazifascistas fizeram. É o Niedergang total – a descida no homem da pura fisiologia, que é o termo que ele próprio usa nesse texto.

Ele curiosamente coloca como, digamos, o desdobramento dessa luta entre Aufgang e Niedergang, a criação de um partido. É interessante, porque isso está antes da ideia de partido único, que preside tanto os movimentos nazistas quanto nazifascistas. Ele diz “é preciso”, não é bem que é preciso, ele diz, vai descrever, digamos, quais serão os passos de como se desdobrará esse movimento. E ele diz “vai-se criar” ou “deve-se criar um partido da vida”, bom, “forte o suficiente para a grande política”. A grande política torna a fisiologia a rainha de todas as outras questões. Então, é a ideia do homem como a pura fisiologia, e um partido político totalitário para impor esse fisiologismo. Isso é o que Nietzsche prevê, ou deseja, ou prega, a gente nunca sabe, mas é isso que ele, de certa forma, anuncia. É isso que tanto, por exemplo, o partido comunista de Lênin, mais tarde, quanto o partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães tentam implementar. É curioso porque, no Brasil, para nós o termo “fisiologia” adquiriu, na política, um outro sentido bastante próprio, que nós todos conhecemos. Então quando Nietzsche diz, assim, “Ah! Vamos fazer da fisiologia a rainha de tudo”, o sistema político brasileiro fala: “Deixa comigo!” Bom, o que há, então, ao longo do século XX, é esse terrível mergulho da humanidade nessa noite do fisiologismo, nessa noite sem Deus. E a questão é saber se poderíamos, se um dia conseguiremos emergir desse mergulho. Bem, dessas duas ideologias, desses dois movimentos derivados, não de Nietzsche, mas dessa ideia, introduzida por Nietzsche, da morte de Deus, uma desapareceu; a outra, não. Ao longo de décadas de luta intensa, essas duas ideologias lutaram pela primazia, digamos, desse Niedergang no fisiológico.

E quem lutou contra essas ideologias? Basicamente, as democracias liberais, onde, ao longo do século XX, ainda subsistia algo da ordem antiga, algo da presença de Deus, mesmo que elas talvez não soubessem. Acho que nas democracias liberais, Deus nunca morreu, nunca inteiramente, justamente porque nessas democracias, havia – há – liberdade. E contrariamente ao que muito, às vezes, se fala, onde há liberdade acaba, sempre, havendo lugar para Deus. O conceito de liberdade é absolutamente central ao Cristianismo. Liberdade é uma palavra. “Liberdade” e o verbo “libertar” aparecem dezenas de vezes no Novo Testamento. No corpo das democracias liberais continuava a bater um coração conservador, onde continuava a fluir a fé, a concepção vertical do ser humano, a concepção da transcendência.

Esse amálgama liberal-conservador, ou seja, democracias liberais com economias liberais, mas com o coração ligado à ordem divina, foi a espinha dorsal do Ocidente que lhe permitiu vencer primeiro o nazi-fascismo e, depois, enfrentar o comunismo a partir de 1945. Ao longo de toda a Guerra Fria, esse modelo aparentemente desconexo, incoerente e um pouco caótico dessa fusão entre liberalismo e conservadorismo da fé cristã acabou se impondo ao modelo totalitário do puro fisiologismo. E realmente a gente se esquece disso, desse coração conservador do Ocidente na Guerra Fria. Ronald Reagan foi uma epitome desse amálgama: com “reaganomics” e todo seu impulso liberal, ao mesmo tempo era um homem de profunda fé, que colocava essa fé na sua concepção política, e de enfrentamento do mundo socialista, que ele, ao contrário de seus predecessores, não teve problema em chamar de mal, de mal absoluto.

Outra figura importante nesse momento, da qual a gente também se esquece, é o Papa João Paulo II – São João Paulo II – que atuou politicamente na superação desse inimigo fisiológico, o comunismo. [Atuou] politicamente, mas a partir da sua fé profunda. Tive oportunidade de falar um pouco disso na Polônia, onde estive há pouco tempo: o caráter conexo dessas duas dimensões da atuação de João Paulo II.

O problema é que, depois de 1989, justamente com a vitória desse Ocidente, dessa linha liberal-conservadora, alguém achou que não precisava mais do coração conservador, da fé cristã no centro das democracias liberais. Alguém falou assim: “Vencemos, a economia de mercado e a democracia representativa agora se espalharão pelo mundo todo. De Deus ninguém precisa, isso é uma relíquia da Idade do Bronze”. Resolveram expulsar Deus do coração da sociedade liberal e deixaram Deus do lado de fora, ali no frio.

Não se deram conta, mas há muito o comunismo vinha-se preparando para ocupar a sociedade liberal por dentro, com a teoria de Gramsci, com a Escola de Frankfurt, com a Revolução Cultural dos anos 60. E, com essa abertura no coração da sociedade liberal, que expulsa Deus, o caminho ficou livre para que o marxismo cultural, o gramscismo, como quer que se chame, ocupasse o coração da sociedade liberal, que tinha sido deixado vazio. Isso é o globalismo, o momento em que o comunismo, o fisiologismo, o gramscismo, como quer que se chame, ocupa o coração que tinha sido deixado vazio da sociedade liberal.

É interessante porque se passam exatamente 100 anos, um século exato entre esse momento do final da vida produtiva de Nietzsche, o momento do início da sua loucura, em que se anuncia como crucificado, e a queda do Muro de Berlim, entre 1889 e 1989. Durante esses 100 anos, a sociedade liberal tinha sido, meio sem o saber, o baluarte da Aufgang, da concepção da transcendência, da concepção vertical do ser humano, como um ser não só material, mas também espiritual. Infelizmente, do nosso ponto de vista, nesse momento – em 1989, ou por aí –, meio inconscientemente, a sociedade liberal se entrega à Niedergang, ao fisiologismo, porque acha que a disputa da Guerra Fria havia sido uma disputa puramente econômica e que a vitória do modelo econômico capitalista era tudo que era preciso para essa vitória final.

Não foi vitória coisa nenhuma, foi, de certa forma, uma derrota cujos efeitos estamos vivendo até este momento. Não perceberam que, por trás desse debate, dessa disputa entre modelos econômicos e políticos, estava aquilo que Platão chamava, e que Heidegger recupera, “gigantomachia peri tes ousias”, a gigantomaquia, a grande luta pela essência do ser humano. Isso estava em jogo.

O historiador e filósofo francês Marcel Gauchet criou o termo de desencantamento do mundo, “le désenchantement du monde”, para falar de todo esse percurso da sociedade democrática, que aos poucos, a partir do século XVIII vai livrando-se, desfazendo-se da ideia de Deus. O que era esse encantamento do mundo? Era justamente a presença de Deus.

Hoje, ao longo do debate e do seminário, os palestrantes vão falar de alguns, talvez de todos os instrumentos dessa inserção do fisiologismo (chamemos assim, para continuar usando esse termo) dentro do coração da sociedade liberal, que, a meu ver, constitui a definição do globalismo.

Para mencionar alguns dos instrumentos que identificamos: o desconstrucionismo linguístico talvez seja o principal, que é a separação entre a palavra e a realidade, que também pode ser chamado de nominalismo, embora não seja exatamente o conceito da filosofia medieval de nominalismo, mas, enfim, a elevação de determinados conceitos, de determinadas palavras a um caráter absoluto onde já que não se dialoga com a realidade. A ideologia de gênero, acho que também vai ser um tópico aqui. O que eu chamo de “racialismo”, que é a concepção da sociedade dividida em raças, a volta – algo tão lamentável – do conceito de raça como algo que seja substrato da formação da sociedade. E o ecologismo, por diferença da ecologia, quer dizer, o ecologismo é, digamos, a ecologia transformada em ideologia, ou seja, mais um desses exemplos onde determinada área de atividade, de pensamento, deixa de ter contato com a realidade e se torna algo que extrapola, algo abstrato que não é mais objeto de debate, que tem que ser implementado sem debate. Então é fundamental, acho, fazer essa distinção entre ecologia, ou a dimensão ambiental, no seu caráter legítimo, e o “ecologismo”, o ambientalismo como uma ideologia.

E todos esses instrumentos pressupõem a ausência de Deus, pressupõem a horizontalidade do ser humano. E, ao mesmo tempo – e algo que previa Nietzsche – eles criam um novo moralismo, criam uma nova moral, um moralismo férreo, um mecanismo de opressão psicológica. Nietzsche previa isso nesse desdobramento do niilismo, que o niilismo não levaria a uma ausência de moral, mas a uma tentativa de recuperação de uma moral, mas já sem a base numa ordem divina, numa ordem estruturada. Então, é curioso, porque no ápice, mais ou menos, que nós estamos vivendo, de todos esses movimentos, que em tese partem de movimentos libertários, nós temos, cada vez mais, um caráter opressivo, coisas que você não pode falar, coisas que você não pode fazer, um moralismo inclusive no campo sexual, em que hoje um homem olhar para uma mulher já é tentativa de estupro. Isso é um moralismo muito mais pesado que aquele que se criticava no século XIX, na época vitoriana.

O globalismo tenta formular, de maneira canhestra, uma espécie de nova religião, com esses pseudo-valores, esses conceitos legítimos, mas que são extrapolados e transformados em ideologia – como direitos humanos, como tolerância, como a proteção ambiental, por exemplo. Isso é uma resposta ao deserto de valores que surgiu nesse avanço do niilismo, onde se perdeu o conceito de propósito, o conceito de unidade e o conceito de verdade. Isso também é uma tríade nietzschiana. Ele disse que isso iria acontecer, que se perderiam esses três pilares, digamos, do conceito anterior, da moral baseada num conceito divino. E o globalismo começa a inventar falsos inimigos para defender algo, para ter a sensação de defender algo e se dotar de algum tipo de sentido de propósito, de unidade e de verdade. Mas existe um problema nessa criação de uma pseudo-religião globalista, que é o seguinte: que tudo isso pressupõe que o homem, que o ser humano é a medida de tudo, pressupõe uma espécie de humanismo, só que, ao fazer isso, o globalismo se dá conta de que ele abre a porta para algum tipo de retorno de Deus, porque colocar o homem como valor supremo leva a indagar de onde vem esse valor supremo do ser humano. Só pode vir de algo acima dele e isso o globalismo não admite.

Então, é curioso, porque se cria um estranho humanismo, que é um humanismo que desmerece o homem, e equipara o homem à máquina. Então, nós estamos vendo hoje, é interessante toda a discussão da inteligência artificial, onde normalmente se fala: “bom, a inteligência artificial é a máquina aprendendo a pensar como o ser humano”. Ok, na verdade, o que está acontecendo é o contrário – e isso é o programa globalista – é o ser humano aprendendo a pensar como máquina, é a mecanização do ser humano. Os teóricos da singularidade, que seria o momento em que a inteligência artificial vai superar a inteligência humana – aquele Kurzweil, um escritor americano, disse que deve acontecer por volta de 2050, quer dizer, seria mais ou menos no final dos duzentos anos de Nietzsche, acho que nós estamos nos aproximando disso, mas, na verdade, não é o momento onde a máquina aprenderá, como eu digo, a pensar como o homem, é mais o contrário, será o momento onde nós seremos forçados e passaremos a ser subjugados pela nossa própria concepção mecanicista do pensamento humano.

Bom, acho que já falei bem mais do que eu devia. Acho que estamos nesse momento de uma recomposição e de uma tomada de consciência que está em jogo, o que é essa gigantomaquia e de como nós estamos nos comportando diante dela. Então, quer dizer, qual é o grande desenho, digamos, que eu procurei formular aqui? Bom, a gente parte do conceito de que Deus está morto; daí surge o fisiologismo como estrutura filosófica, digamos assim, de organização de uma sociedade sem Deus; surgem duas ideologias baseadas nisso, elas se digladiam, uma delas sobrevive. E o liberalismo que as enfrenta, porque preserva um núcleo de fé e de antropoteísmo, esse liberalismo com Deus no centro, inicialmente triunfa sobre o fisiologismo, mas acha que foi um triunfo meramente econômico e dispensa Deus do seu centro. Aí surge o globalismo. E o globalismo é o niilismo, basicamente. Globalismo é a consolidação daquele niilismo previsto por Nietzsche, ou seja, é a sociedade liberal ateia submetida aos mecanismos de controle daquele núcleo gramcista ou comunista ou fisiologista, como chamemos.

E nós talvez estejamos começando a viver um novo momento, um momento central desse conflito entre Aufgang e Niedergang, onde nós tentamos reintroduzir Deus nessa cidadela da sociedade liberal, em substituição a esta religião ateia do politicamente correto. Eu acho que um momento simbólico desse movimento – movimento no qual o Brasil (isso a gente pode discutir depois, já esgotei meu tempo aqui) tem um papel fundamental –, um momento simbólico, é no último Fórum Mundial de Davos, onde, no discurso de abertura, o presidente Bolsonaro, no final, falou de Deus. Falou de Deus. Eu não sei, não fui pesquisar, mas eu acho que provavelmente foi a primeira vez em que um chefe de Estado fala, usa a palavra Deus, acreditando nele, sobretudo no Fórum de Davos! Eu imagino as pessoas ali tendo que olhar no dicionário – assim, “o que significa esse nome?” – em um momento, realmente, de certo desconcerto.

E eu acho que é isso, acho que o momento que estamos vivendo é esse, é Deus em Davos. Nós estamos entrando na cidadela para tentar recuperar esse coração da sociedade liberal, tentar recompor o amálgama liberal-conservador que foi aquilo que permitiu, ao longo destes últimos cento e tantos anos, a preservação de um conceito profundo de dignidade humana, do ser humano como um ser, claro, terrestre, mas que se relaciona com o mundo espiritual, que se relaciona com Deus, e não como esse ser aplastado, esse ser horizontal, que daqui a pouco se a gente deixar – não vamos deixar! – vai começar a pensar como máquina.

Então é isso: Deus em Davos! Obrigado!

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