Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

Excelentíssimo senhor Presidente da República, Michel Temer;

Senhor secretário-geral das Relações Exteriores, embaixador Marcos Galvão;

Senhor diretor-geral do Instituto Rio Branco, embaixador José Estanislau do Amaral;

Embaixadora Tereza Quintela, paraninfa da Turma Marielle Franco;

Professora Sarah Walker;

Senhora Marinete da Silva e senhor Antônio da Silva Neto, pais da nossa patrona dessa formatura, Marielle Franco,

Ministros de Estado aqui presentes;

Minhas senhoras, meus senhores pais dos formandos;

Meus caros formandos.

 

Eu quero começar por agradecer, Presidente Temer, a sua honrosa presença nesta cerimônia. Desde o ano passado, vossa excelência retoma essa tradição que é um orgulho para nós: a presença do Presidente da República nessa data tão relevante para a vida dessa instituição. A data em que comemoramos – basicamente comemoramos – comemoramos a formatura dos novos diplomatas e também celebramos o aniversários da figura tutelar da diplomacia brasileira que é o Barão do Rio Branco. Aliás, eu queria mencionar uma passagem do belo discurso que fez hoje o orador da turma quando ele se refere à necessidade permanente que nós, que nos dedicamos à política externa, de nos comunicarmos com a sociedade, de fazermos com que a opinião pública se apodere dos temas de política externa, mostrando-lhes a vinculação – mostrando aos nossos compatriotas a vinculação íntima que existe entre os desafios que o Brasil enfrenta no exterior, como superá-los e a superação dos nossos problemas, as nossas dificuldades, e dos obstáculos ao nosso desenvolvimento. E o Barão de Rio Branco foi capaz de fazer isso.  Ele foi ministro de Relação Exteriores durante muitos anos e ao mesmo tempo foi figura cultuada no Brasil. Todas as vezes que chegava ao Brasil depois da sua participação em conferências internacionais nas quais ajudou a moldar, a definir os nossos limites, ele era recebido com manifestações de enorme gaudio popular. E quando faleceu foi objeto também de uma extraordinária manifestação do povo de homenagem a ele, que de alguma forma foi homenagem também ao papel da diplomacia na construção do nosso país.

Eu não quero, Senhor Presidente, não seria adequado fazer nesse momento um balanço daquilo que temos feito sob sua direção no Ministério das Relações Exteriores. Penso que procuramos aqui no ministério sintonizar a política exterior brasileira, os rumos que temos imprimido a ela ao ambicioso programa de reformas que Vossa Excelência empreende na Presidência da República. Eu penso que hoje sobretudo, da minha parte, é momento de ressaltar esta alegria daqueles que hoje ingressam nessa carreira e celebrarmos através dos formandos essa boa tradição de perseguir o interesse nacional através da sua ação diplomática. Busca do interesse nacional que não se desvincula do culto de valores, que são valores, como Vossa Excelência já se referiu na cerimônia do ano passado, expressos na própria Constituição brasileira: a independência nacional, a busca de solução pacífica das controvérsias, o primado do direito internacional, uma política externa que contribua para o desenvolvimento do país, uma política externa que promova a integração da América Latina do ponto de vista econômico, cultural, político. Enfim, uma política externa que, baseada em ideias e valores simples, claros, nos fornecem esses valores guias para nos mover em situações complexas, como é a da situação do mundo de hoje.

Vocês, meus queridos formandos, ingressam hoje numa corporação que é muito ciosa da sua organização, da sua tradição, do seu valor e da contribuição que presta ao país. E o discurso do orador da turma foi todo ele orientado nessa linha. Um corpo de servidores do estado, recrutados em um concurso duríssimo – e é mais uma razão para celebrarmos hoje essa conquista de vocês e de seus parentes. Uma carreira orientada pelo princípio do mérito, uma carreira estruturada em regras claras e que precisam tornar-se cada vez mais claras e transparentes.

Nesse sentido, Senhor Presidente, nós estamos elaborando um anteprojeto que vamos submeter a Vossa Excelência, de uma nova Lei do Serviço Exterior brasileiro, que busca exatamente alcançarmos esse objetivo: uma carreira que seja previsível, uma carreira onde a pessoa que ingressa sabe quais são os passos que deve ultrapassar para ter a progressão na sua carreira, que haja igualdade de oportunidades a todos na ocupação de postos importantes, que possa fazer o equilíbrio entre a presença do diplomata em outros países e a presença aqui na Secretaria de Estado, uma carreira previsível imune a ingerências que possam provocar a tão detestada carona daquele que ultrapassa o mérito, a avaliação interna, a avaliação hierárquica em razão de proteções que não levam em conta o mérito das pessoas. Esse é o sentido que Vossa Excelência imprime à sua gestão e eu agradeço imensamente o fato de que o senhor, ao longo desses anos, desse tempo em que estou aqui no ministério, tenha sempre prestigiado esse critério da impessoalidade de do mérito, mas que é preciso aperfeiçoar.

O discurso da nossa paraninfa nos faz alguns alertas. Nós temos hoje nessa turma um terço de mulheres. O embaixador Estanislau já me disse que na turma que entra a proporção aumenta e ultrapassamos 40%. Mas além do ingresso é preciso que as mulheres tenham oportunidade na carreira para que elas possam ascender sem precisar servir de troféu para ser exibido aos outros, como apanágio da igualdade. Não se trata apenas de ingressar – e ingressar já é difícil – mas ascender, ocupar postos de relevo onde possam ter voz que seja escutada e levada em conta. Esse ingresso, embaixadora Tereza Quintela, ocorreu em 1918 – a primeira diplomata – e ocorreu em razão de uma medida judicial, a partir de um parecer de Rui Barbosa.

Rui Barbosa, Presidente, que exarou esse parecer a pedido da candidata que foi a primeira diplomata, valeu-se da gramática para abrir a porta para esse primeiro ingresso. A lei dizia que o Serviço Exterior Brasileiro estava aberto para brasileiros, e se entendia que brasileiros eram do sexo masculino. Rui Barbosa então, com recurso à gramática, elucidou a questão e deu razão à postulante – brasileiros e brasileiras. O que é dramático, senhor Presidente, é que ontem me dizia a embaixadora Tereza Quintela, é que durante um período entre 1938, se não me engano, e 1954, as mulheres não podiam, por disposição expressa da lei, ingressar no serviço diplomático. O serviço diplomático estava aberto apenas a homens. Sexo masculino. E também foi mediante um recurso judicial que essa porta foi aberta. Foi aberta por pessoas valorosas como a senhora e outras tantas diplomatas que souberam afirmar o seu valor ao longo do percurso da vida profissional. Mas o seu discurso é realmente um alerta, nos coloca diante da preocupação constante de levarmos em conta essa necessidade de abrir espaço para que as mulheres possam contribuir para a carreira diplomática, para a vida dessa instituição, na medida do seu valor.

Eu queria, senhor Presidente, fazer uma referência também muito emocionado aos pais da Marielle Franco, que aqui estão presentes. Tive a ocisão de conhecê-los quando chegava agora ao ministério acompanhado da minha mulher. Eu queria dizer aos senhores que também sou pai, sou avô, e a perda de um filho, especialmente nas condições em que perderam Marielle é algo.. é uma ferida que não se fecha nunca. E eu espero que essa homenagem que prestamos à sua filha possa de alguma maneira confortá-los e dar-lhes a certeza de que aqueles que tentaram matar a Marielle pela segunda vez não prevalecerão. Tentaram matar Marielle pela segunda vez ao espalhar sobre ela a baba nojenta da calúnia. Saibam que o nome desta turma fará com que o nome dela seja lembrado aqui no instituto e no Itamaraty. Ele não desaparecerá da nossa memória. Não apenas porque a figura dela – a figura de uma pessoa que lutou corajosamente pelos ideais da igualdade, da justiça, da não-discriminação, da não-violência, da dignidade da pessoa humana (e que por isso mesmo morreu) – o nome dela não será esquecido. Mesmo porque os valores que ela defendeu são valores hoje amplamente compartilhados pela sociedade brasileira. São valores que vêm do fundo da sociedade brasileira. O Brasil não aceita, não aceitará discriminação, violência, intolerância. O Brasil quer viver uma sociedade livre, democrática, aberta, onde o preconceito não prevaleça, onde as pessoas possam ser valorizadas por elas mesmas. Não apenas o preconceito, como o privilégio, é algo que não aceitamos mais. O povo brasileiro não aceita mais. Nessa medida, sua filha Marielle é muito representativa desse país novo que vai lutando para se livrar de coisas antigas, velhas, arcaicas, carcomidas, e quer se afirmar como país que todos nós queremos construir aqui entre nós e que vocês, caros amigos, formandos, novos diplomatas, contribuirão certamente para fortalecer ao longo de sua atividade.

Eu desejo que vocês sejam sobretudo muito felizes. Aproveitem a carreira. Aproveitem os postos desafiadores. Não se deixam acomodar pelo culto dos processos que se esgotam em novos processos. Que não se deixem embotar pela burocracia. Vocês já demonstraram serem muito representativos do país, pela origem geográfica, pela origem social, pela formação prévia que tiveram antes de ingressar no Rio Branco – vi ontem filósofos, médicos, militares, engenheiros que ingressaram na nossa careira e que poderão a partir dessa formação, da sensibilidade que trazem do Brasil, fazer com que realmente com que vocês sejam, como disse o orador, a voz do povo brasileiro. Meus parabéns, felicidades a todos.

Fim do conteúdo da página