Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

Excelentíssimo senhor Presidente da República, Michel Temer;

Senhor Presidente do Congresso Nacional, meu caríssimo colega, Senador Eunício Oliveira;

Senhores ministros, senhora ministra;

Meus colegas de Ministério;

Senhor Secretário-Geral das Relações Exteriores, Embaixador Marcos Galvão;

Senhor embaixador do Brasil em Buenos Aires, paraninfo das turmas Paulo Evaristo Arns e Bertha Lutz, Embaixador Sérgio França Danese;

Senhor Diretor-Geral do Instituto Rio Branco, Embaixador José Estanislau do Amaral Souza Neto;

Meus prezados colegas do Itamaraty;

Senhoras formandas;

Senhores formandos;

Familiares dos formandos aqui presentes, inclusive o jovem Bernardo, que choramingava ainda há pouco aqui no nosso auditório, e que saudava a presença aqui entre nós de sua mãe.

Meus amigos;

O Itamaraty celebra hoje, 20 de abril, com a honrosa presença do senhor presidente da República, o Dia do Diplomata. É um dia que marca o nascimento do barão do Rio Branco, e a formatura de novos diplomatas.

A observância dessa data é uma das tradições mais caras ao Itamaraty, e ela é retomada hoje, com a presença do presidente da República entre nós, depois de um hiato de cinco anos.  Nós estamos voltando à normalidade.

E que sejam as minhas primeiras palavras as de agradecimento ao senhor presidente Michel Temer, por ter recolocado o Itamaraty no centro da formulação e da execução da política externa brasileira, seguindo uma rota que conquistou, para nossa diplomacia, respeito e apreço no Brasil e no mundo. Essa é a orientação que recebi e que todos nós recebemos do presidente Temer: executar uma política de estado que, sendo universalista por vocação e também por tradição, tem os seus olhos voltados para o nosso entorno regional. Até porque esse é um mandamento da nossa constituição: buscar a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina.

A nossa diplomacia há de ser sempre um instrumento a serviço da modernização e da prosperidade do nosso país; uma política de estado em prol da estabilidade da nossa região e do mundo.

Em uma conjuntura marcada pela imperiosa tarefa de recuperar a economia brasileira, a política externa está empenhada em ajudar no processo da retomada do crescimento.

Mas erra, minhas senhoras e meus senhores, quem pensa que as relações internacionais são feitas apenas de interesses. Sem a argamassa dos valores e dos princípios, aliás, todos eles fixados, meu caro presidente, na nossa constituição, no artigo 4º da nossa constituição; sem a argamassa desses princípios, o edifício das relações entre países não resiste à primeira intempérie.

Nós ganhamos consistência na nossa atuação internacional quando refletimos as preocupações com os direitos humanos, com a democracia e com a sustentabilidade. E fazemos isso porque é isso que espera de nós a sociedade brasileira.

É com muita alegria que nós celebramos hoje a formatura das turmas 2014-2016 e 2015-2017, uma delas conhecida como a turma dos 18 de Copacabana. Aliás, todos sobreviveram às etapas da sua formação e terão pela frente uma vida longa e feliz.

Eu quero dar as boas-vindas a cada um dos jovens colegas aos quadros do Itamaraty, felicitá-los pela escolha que fizeram e pelo êxito que alcançaram em um dos concursos mais competitivos, mais duros do Brasil, e pelo curso que acabam de concluir.

Eu recebi ontem famílias dos nossos formandos, senhor presidente. E eu penso que essa é a festa dos formando, mas é sobretudo a festa das famílias. A alegria que eu vi em cada um deles, a emoção que eu vi em cada um dos parentes, dos amigos por essa conquista foi algo que me tocou, me tocou profundamente. Cheguei a me lembrar, meu caro presidente, do momento em que eu conclui o meu curso na nossa faculdade de direito, uma extraordinária proeza.

Pois saibam que se apresentam, nos concursos do Itamaraty, cerca de cinco a seis mil candidatos para trinta vagas. É um concurso muito difícil, porque são todos muito bem preparados. Às vezes se apresentam mais de uma vez; duas, três vezes, até conseguirem ingressar e alcançar o seu objetivo. E à medida que o tempo vai passando, que o Brasil vai mudando, os concursos acolhem, com seu resultado, pessoas das mais diferentes regiões e dos diferentes estados do Brasil. É claro que nossos novos ingressantes estavam concentrados, há até alguns anos, há até algumas décadas atrás, no Rio de Janeiro, onde ficava o Itamaraty, em São Paulo, em Minas Gerais, nos estados mais populosos. Hoje, os ingressos estão distribuídos pelo país inteiro e as nossas promoções refletem a diversidade do nosso país. São o retrato do Brasil. Um retrato que precisa ser ainda mais focado. Precisamos aprimorar, ainda, os nossos mecanismos de apoio à diversidade e à inclusão. Mas o fato é que os formandos são um retrato do nosso país. Há algum tempo, os formandos vinham de famílias de diplomatas, seguindo a vocação que conquistaram no convívio com seus familiares. Filhos e netos de diplomatas prestavam o concurso e ingressavam no Itamaraty. Assim como eu, que sou filho e neto de advogados, vi nascer em mim a vocação para a carreira jurídica. Hoje, não mais. Há uma enorme diversidade nas famílias de onde provêm nossos jovens diplomatas, que estão iniciando hoje uma carreira que é única, como já foi bem ressaltado aqui pelos oradores das turmas e pelo Embaixador Danese, que envolve mudanças, sacrifícios e dedicação, mas traz também uma enorme satisfação de servir ao Brasil e ao nosso povo.

Uma carreira que é uma espécie de sacerdócio laico, porque vocês já notaram que ingressaram em uma corporação, no bom sentido da palavra, que atua segundo códigos regulamentares e que cultiva tradições, para poder cumprir com eficiência as suas tarefas e atribuições.

Eu, quando cheguei aqui, me deparei inclusive com uma terminologia própria: telegrama. Não se faz mais telegrama. Mas recebemos telegramas dos postos no exterior, alguns deles contendo análises primorosas, os quais envio à Vossa Excelência. Quando peço alguma informação para me orientar, para me subsidiar no contato com autoridades de outro país, eu recebo "papéis", não informações. É um claro exemplo de antonomásia. Há até pouco tempo, esses telegramas ficavam armazenados em caixas chamadas "sarcófagos".

Há um estilo, um modo de falar, que eu aprecio muito, porque é uma expressão que busca traduzir, na fala, um pensamento bem articulado, disciplinado, elegante. Uma elegância que não se confunde com esnobismo, mas com bom gosto, equilíbrio. Um estilo alheio à hipérbole, aos exageros, mas que não deixa de ser muito firme na defesa dos interesses nacionais. É um estilo conciliatório, mas que busca resultados concretos e a projeção dos valores da sociedade brasileira.

Eu valorizo a tradição, sem me deixar aprisionar por ela. E esta é uma Casa que valoriza a tradição. Vocês irão incorporar, na vida cotidiana, a tradição diplomática, que é o que garante a continuidade na defesa dos objetivos permanentes do estado, a começar por aqueles que estão inscritos na nossa Constituição Federal. Essa tradição rejeita o voluntarismo diplomático.

Ficou entre nós a lição de Joaquim Nabuco, escrita em seu Diário, a propósito da missão de Rui Barbosa em Haia: "não se fica grande por dar pulos. Não podemos parecer grandes, senão o sendo".

Isso quer dizer que, na defesa de nossos interesses globais, é preciso granjearmos, cada vez mais, poder para influir de modo decisivo. Essa influência se conquista com esforço metódico, com avanços econômicos, mas também científicos, culturais, tecnológicos e de cooperação, capazes de imprimir densidade em nossas relações com outros países. E a conquista dessas condições passa, necessariamente, como lembra Rubens Ricupero, em obra editada pela Fundação Alexandre de Gusmão, pelo processo de desenvolvimento.

Uma prioridade da nossa tradição diplomática, inscrita nos nossos códigos de conduta, nos nossos objetivos, desde a década de 1930, pelo menos.

A atuação de nosso país no mundo tem a seu favor um atributo essencial, que é a credibilidade lastreada em uma nítida identidade nacional. Vocês já têm ocasião de constatar, a forma como o Brasil é visto no exterior. Quando nos perguntam quem é o Brasil, nossa resposta está naquilo que nós fazemos, na forma como nós nos comportamos.

O Brasil é visto como uma grande democracia, um país amante da paz, comprometido com o direito internacional e a solução pacífica de controvérsias.

O nosso território, imenso território, foi delineado por atos jurídicos, por acordos e tratados diplomáticos, que consolidaram não apenas a herança que recebemos dos portugueses, mas também a conquista territorial laboriosa dos nossos povoadores, dos nossos sacerdotes, e que foi sacramentada pelos nossos diplomatas.

É um país que se pauta pelo respeito às instituições multilaterais e pela busca concertada de soluções para os grandes desafios globais, em áreas como comércio e finanças, paz e segurança, democracia, direitos humanos e mudança do clima.

Nós somos admirados não apenas pela palavra empenhada, pela força da palavra empenhada, mas, sobretudo, por nossas ações como disse demonstradas em operações de paz de que participamos, na liderança do processo que permitiu a adoção do acordo de Paris sobre a mudança do clima, nas negociações em curso para assegurar o desarmamento nuclear, nos esforços para integrar a nossa região na democracia.

Nós somos admirados também por uma cultura vibrante, pela diversidade da nossa população, pela força da nossa democracia, pela indústria forte, uma agricultura competitiva, e esse ativo estratégico extraordinário que é nossa biodiversidade.

Vocês vão representar, meus caros formandos, um país cada vez mais respeitado, um país que não foge das suas responsabilidades como ator global, de crescente influência internacional.

Um país que reconhece seus próprios desafios, mas que os enfrenta com desassombro e sem ter medo de assumir o lugar que lhe cabe no concerto das nações.

É com esse mesmo desassombro que cada um deverá encarar o seu papel ao longo da vida profissional.

Faço votos de que aproveitem cada etapa da caminhada que elegeram, preservando, como aconselhou ainda há pouco o Embaixador Danese, o necessário equilíbrio entre os objetivos profissionais e a realização de uma vida pessoal, que se constrói nos afetos, na solidez da amizade e no convívio familiar.

Essa carreira a que vocês agora seguem, meus caros amigos, é motivo de orgulho para todos nós. Felicito-os pela escolha não apenas do paraninfo, mas também do nome do cardeal D. Paulo Evaristo Arns que, e eu não exagero, foi um herói na luta pela democracia no Brasil, pelo respeito pelos direitos humanos, e da batalha pela dignidade humana. E a turma que recebeu o nome de Bertha Lutz também homenageia uma pessoa, que aliás dá o nome a um dos prêmios instituídos pelo Congresso Nacional para agraciar as pessoas que se distinguiram na luta pela igualdade das mulheres, o  nome de Bertha Lutz.

Meus caros amigos, eu gostaria de encerrar na lembrança de um discurso que li, pronunciado por Graciliano Ramos, que foi transcrito pelo seu filho, Ricardo, em um perfil que traçou do seu pai. Graciliano Ramos, depois de dar várias voltas no seu discurso de paraninfo, concluiu como eu concluo agora: eu desejo que vocês sejam muito felizes.

Fim do conteúdo da página