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A diplomacia brasileira vive momento de grande dinamismo, conforme as prioridades do governo do Presidente Lula: ampliar a geografia das relações externas do Brasil, atualizando o conteúdo de nossa vocação universalista; e adotar uma postura firme e ativa nas negociações multilaterais, inclusive regionais, com vistas a assegurar um espaço regulatório internacional justo e equilibrado. Subjacente a essas prioridades está o imperativo de preservar a nossa capacidade soberana de definir o modelo de desenvolvimento que desejamos para o País.

Completados dois anos de governo, um balanço preliminar das realizações na agenda externa revela coerência com a trajetória pessoal e política do chefe do Executivo. O presidente tem a visão de um Brasil mais democrático e mais justo, e isto se reflete na sua defesa de uma maior equanimidade nas relações internacionais, e na convicção de que paz, segurança e desenvolvimento não podem estar dissociados.

Logo no primeiro mês de governo, o presidente decidiu - de forma inédita - participar tanto do foro social de Porto Alegre quanto do foro econômico de Davos. Nos dois eventos, o presidente transmitiu a mesma mensagem da importância de se incorporar o elemento de justiça social às propostas de desenvolvimento econômico e do imperativo de se construir uma ordem internacional mais estável e segura.

Também em janeiro de 2003, ocorreu um fato que marcaria a inflexão do governo brasileiro para uma atitude de solidariedade ativa nas questões regionais. Ao princípio da "não-intervenção", tão importante na tradição diplomática brasileira, veio somar-se o da "não-indiferença". De fato, do mesmo modo que não cabe interferir no direito soberano de cada povo de resolver seus próprios problemas, é preciso que os países com capacidade demonstrem disposição de colaborar, sempre que chamados, sobretudo quando são evidentes os sinais de crise política e social.

A constituição do Grupo de Amigos do Secretário-Geral da OEA para a Venezuela, que atuou, ao longo de mais de um ano, como facilitador do diálogo entre os diferentes atores políticos venezuelanos, foi emblemática da postura que o Brasil adotaria diante de situações de instabilidade nos países da região. Confrontado com a crise política no país vizinho, o governo brasileiro entendeu que não podia permanecer como mero observador. Ao mesmo tempo, estávamos cientes de que cabia aos venezuelanos encontrar as soluções para seus problemas. Foi, afinal, possível estabelecer pontes entre o governo venezuelano e as forças de oposição para o encaminhamento de uma solução política, na forma do referendo que confirmou a permanência do presidente Hugo Chávez na presidência da Venezuela.

A intensidade da atividade diplomática ao longo do biênio 2003/2004 deixou evidente a determinação do Presidente Lula de conceder atenção especial à dimensão externa de sua agenda. O presidente tem estado pessoalmente à frente das iniciativas para estreitar as relações diplomáticas com todas as regiões do globo, o que o levou a realizar 56 viagens, por 35 diferentes países. Em contrapartida, foram recebidas 52 visitas de chefes de Estado e de governo estrangeiros, oriundos de 39 países.

Tem alta prioridade na agenda externa brasileira a construção de uma América do Sul politicamente estável, próspera e unida, como afirmou o presidente já em seu discurso de posse. Marco importante da integração sul-americana foi a reunião de presidentes da América do Sul, em Cusco (dezembro de 2004), que deu origem à Comunidade Sul-Americana de Nações. A criação de uma verdadeira comunidade de nações constitui um processo necessariamente complexo. Basta lembrar que a Europa levou cinqüenta anos para concretizar uma união.

Na verdade, o processo de criação de uma comunidade sul-americana de nações avança mais rápido do que se poderia imaginar. De 2003 para cá, concluímos o acordo, entre o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações (CAN) e foram concebidos diversos projetos para a integração da infra-estrutura, em transportes, comunicações e energia, no contexto da Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Sul-Americana, a IIRSA. Essa integração física do continente, nunca é demais lembrar, constitui parte essencial do projeto de desenvolvimento do próprio Brasil. A ligação rodoviária do Acre ao Pacífico, via Peru, por exemplo, além de seu significado histórico, terá impacto econômico significativo para o progresso do Oeste brasileiro.

O outro fato recente que merece ser ressaltado foi o ingresso de novos Estados associados ao Mercosul, por ocasião da Cúpula de Ouro Preto, no final de 2004. Dez anos após a reunião, na mesma cidade que deu personalidade jurídica ao Mercosul, seis países associados - Bolívia, Chile, Peru e, agora, Colômbia, Equador e Venezuela - somam-se aos quatro integrantes originais do bloco. Está sendo construído o que parecia um sonho há uma década, quando o Brasil propôs, em reunião do Grupo do Rio, a criação de uma área de livre comércio sul-americana.

Ciente de sua posição geográfica e do peso de sua economia nas transações
intra-regionais, o Brasil reconhece que seu papel nesse processo de integração comporta custos e supõe uma visão "generosa", para que possamos compensar os desequilíbrios nos diferentes graus de desenvolvimento dos países da região. Generosidade, neste caso, nada mais é do que a capacidade de colocar os interesses do longo prazo acima de objetivos imediatistas.

Outro continente a que o governo Lula tem conferido atenção especial é o africano. Nessa empreitada, temos presentes nossos laços históricos e culturais, nossa condição de país com grande população de afrodescendentes e, ainda, os esforços internos do governo para a promoção da igualdade racial. A África é um continente pobre, mas não estagnado. Em minhas diversas viagens ao continente africano, noto haver dinamismo e vontade de encontrar soluções autóctones para os problemas africanos.

O Presidente Lula já realizou três viagens à África. Em uma primeira etapa, esteve em Angola, Moçambique, África do Sul e Namíbia; na segunda viagem, visitou São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Gabão - acompanhado, em ambas as oportunidades, de numerosa delegação de ministros, empresários e parlamentares. A terceira viagem (abril de 2005) incluiu o Cameroun, a Nigéria, Gana, Guiné-Bissau e o Senegal. Não se trata de viagens para obter resultados a curto prazo, ainda que, sob a ótica econômica, a África represente um mercado importante: o total do nosso comércio, em 2004, esteve em torno de US$ 6 bilhões. Além do componente econômico-comercial, está-se buscando fortalecer um vínculo político com uma região do mundo à qual nos unem afinidades culturais e laços históricos.

Um dos focos da ação brasileira na África está, por razões óbvias, nos países lusófonos. Na presidência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), até julho de 2004, o Brasil desempenhou papel central nas gestões diplomáticas que contribuíram para a retomada da democracia em São Tomé e Príncipe. Angola é um parceiro tradicional, com o qual mantemos estreito relacionamento em diversas áreas. Com Moçambique, estamos estreitando vínculos comerciais e estabelecendo uma cooperação no setor agropecuário, por exemplo. Na Guiné-Bissau, que passa por uma conjuntura política complexa, o Brasil tem procurado contribuir para que o país reencontre o caminho da democracia e do desenvolvimento econômico.

Buscamos também fortalecer nossos laços com grandes democracias do Sul, o que se refletiu na iniciativa de criação do G-3 ou Ibas - Índia, Brasil e África do Sul - foro de coordenação e cooperação que reúne três países com visões convergentes sobre a ordem internacional. Não é mera coincidência que os três países façam parte do núcleo do G-20, que se consolidou como interlocutor necessário nas negociações comerciais globais, sempre em defesa de uma perspectiva dos países em desenvolvimento.

Em um espírito de cooperação e convergência, Índia, Brasil e África do Sul integram um grupo que, juntamente com China e Rússia, poderá assumir papel internacional crescente nas próximas décadas. O Ibas é um projeto de vanguarda, consistente com a perspectiva do impacto que terão: o crescimento econômico da China e da Índia; a rápida recuperação da Rússia; o crescimento da África do Sul na era pós-apartheid; e a consolidação democrática, estabilização econômica e retomada do crescimento com justiça social no Brasil.

Como primeira iniciativa do Ibas, foi estabelecido um Fundo de Solidariedade pioneiro, que envolve três países em desenvolvimento no financiamento de projetos sociais em benefício de países menos desenvolvidos. O primeiro beneficiário foi Guiné-Bissau, na área do desenvolvimento agrícola e pecuário. Trata-se de um caso particularmente emblemático, por envolver um país africano, membro da CPLP.

Também se beneficiam de um novo impulso as relações entre o Brasil e o Oriente Médio. O Presidente Lula viajou, em 2003, à Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbia. O primeiro-ministro e o presidente do Líbano estiveram em Brasília, tendo sido criada uma Comissão Bilateral de Alto Nível para o aumento do intercâmbio comercial, o desenvolvimento das relações financeiras e o incremento dos investimentos. Em Evian, à margem da reunião do G-8 ampliado, o Presidente Lula encontrou-se com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita. De minha parte, acabo de realizar uma viagem que me levou à Jordânia, Egito, Palestina, Líbano, Síria, Arábia Saudita, Catar, Omã, Kuwaite, Tunísia e Argélia. Abrimos um escritório comercial nos Emirados Árabes Unidos e realizou-se uma missão de empresários brasileiros à Líbia - a primeira em vinte anos.
É promissor o potencial para o incremento do comércio e a atração de investimentos do mundo árabe. Precisamos recuperar o espaço perdido nos últimos dez anos, depois da primeira Guerra do Golfo. Em 1990, a corrente de comércio brasileiro com o Oriente Médio era de US$ 5 bilhões. Em 2002, caiu para US$ 3.7 bilhões, o que representa apenas 3% de nossa pauta de comércio externo. A compra de produtos brasileiros equivale hoje a tão-somente 1,5% do total de importações dos países árabes. Estudos governamentais e do setor privado, indicam que é possível aumentar as exportações para aquela região para pelo menos US$ 5 bilhões, em prazo relativamente curto.

O Brasil deseja aprofundar as relações com os países árabes também por intermédio de contatos mais sistemáticos com entidades representativas da região, como a Liga dos Estados Árabes - organismo regional do qual nos tornamos, em 2003, o primeiro observador latino-americano. O Presidente Lula foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a comparecer a uma reunião de Cúpula da Liga dos Estados Árabes.

A aproximação do Brasil com o Oriente Médio em muito se beneficiará de uma redução das tensões políticas na região. O Brasil tem consistentemente apoiado a criação de um Estado Palestino independente, democrático, coeso e economicamente viável, assim como o direito à existência e à segurança de Israel dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Respaldamos os esforços do Secretário-Geral das Nações Unidas e do Quarteto (EUA, Rússia, União Européia e ONU) para levar adiante o "Mapa do Caminho" entre israelenses e palestinos. Estamos dispostos, inclusive, a cooperar com o processo, caso solicitados pelas partes envolvidas.

Nossa determinação de ampliar nossa presença em uma das regiões estratégicas para a paz e a segurança globais e, eventualmente, de contribuir para o Processo de Paz, nos levou a abrir um escritório de representação em Ramalá e a designar um embaixador extraordinário para os assuntos do Oriente Médio.
Será realizada, em 10 e 11 de maio de 2005, em Brasília, uma Cúpula pioneira reunindo países sul-americanos e árabes. Serviram de inspiração a essa iniciativa os sólidos laços de amizade e cooperação que temos com o Oriente Médio. Encontra-se no Brasil a maior comunidade de origem árabe fora do mundo árabe: mais de dez milhões de brasileiros possuem ascendentes naquela região. Os descendentes de árabes deram decisiva contribuição à formação da identidade brasileira, bem como ao desenvolvimento de nosso país e ao enriquecimento de nossa cultura.

A preocupação com a paz e a justiça social reflete-se no compromisso do governo Lula com os esforços das Nações Unidas no Haiti. Nossa principal motivação ao assumir a liderança das Forças de Estabilização (MINUSTAH) foi a de evitar que o Haiti, a primeira república negra do mundo, caísse no abandono, em um círculo vicioso de instabilidade e conflito.

Trata-se de uma operação de estabilização diferente das anteriores, que, no nosso entendimento, deve assentar-se sobre um tripé: a promoção da estabilização; o diálogo entre as diversas facções políticas; e a capacitação institucional, social e econômica do país. Não haverá reconciliação e paz no Haiti se não adotarmos essa perspectiva integrada.

Estamos tentando algo novo, buscando aprender lições com as intervenções anteriores, baseadas numa visão essencialmente militar da questão do Haiti. Queremos que a ação das Nações Unidas possa contribuir para o progresso e a autonomia da sociedade haitiana. Daí a importância dos projetos de cooperação como os que iniciamos, em dezembro, na área da merenda e material escolar e do cultivo da mandioca e do caju.

O Itamaraty tem dedicado especial atenção às negociações comerciais, multilaterais, regionais ou intra-regionais, além de trabalhar pela abertura de mercados não tradicionais e ampliação dos mercados no mundo desenvolvido. Os resultados falam por si. Em 2003, nosso intercâmbio comercial somou US$ 121 bilhões, sendo 73 bilhões em exportações. Em 2004, elevou-se para US$ 160 bilhões, dos quais 96,5 bilhões em exportações, o que representa 32% de aumento das exportações e 31% de aumento da corrente de comércio. Trata-se das melhores cifras de nossa história.

Merece registro, em 2004, o recorde histórico de exportações para a Argentina, mais de US$ 7 bilhões. O comércio brasileiro com a América do Sul também cresceu significativamente, 61% nos primeiros nove meses, passando de quase US$ 7 bilhões para mais de US$ 11 bilhões; destaca-se o alto valor agregado do comércio com os países sul-americanos: os produtos manufaturados ocupam 91% da pauta exportadora. Vale lembrar que a América do Sul é um mercado em dimensão equivalente à do Brasil, em tamanho, PIB e população. Se trabalharmos com uma visão de longo prazo, seremos capazes de auferir os benefícios de uma América do Sul unida em sua infra-estrutura e em seus mecanismos políticos e sociais.

O aumento do comércio com países sul-americanos e com os países em desenvolvimento em geral - que, hoje, já respondem por 49% de nossas exportações - não se tem feito em detrimento do comércio com os parceiros tradicionais, como os Estados Unidos e a União Européia (UE). Ao contrário, nosso comércio com ambos só tem aumentado: de 2003 para 2004, nossas exportações para os norte-americanos cresceram 15,9%; e para a UE, 31,6%. Ao mesmo tempo, temos conseguido preservar um comércio diversificado e equilibrado com todas as regiões do mundo. Em 2004, os EUA receberam 21% das exportações brasileiras; a UE, 24%; a Argentina, 7,6%; a China, 6,2%; e o México, 4%.

No terreno das negociações comerciais, a iniciativa brasileira de coordenar-se, por meio do G-20, com outros países em desenvolvimento exportadores de produtos agrícolas alterou a dinâmica das negociações comerciais, no antigo Gatt e na Organização Mundial do Comércio (OMC). A ação do G-20 é hoje reconhecida, pelos principais interlocutores na OMC, como uma força aglutinadora e propiciadora de consensos.

Desnecessário insistir no caráter antidemocrático e desfavorável aos países em desenvolvimento da dinâmica negociadora bipolar de rodadas comerciais anteriores, em que os Estados Unidos e a UE acertavam entre si os limites de acordos que eram depois oferecidos aos demais países como "o consenso possível". A criação do G-20 facilitou uma interlocução mais direta, fluida e transparente entre os principais grupos de interesse. Acima de tudo, mostrou que a coordenação Sul-Sul não é um objetivo irrealista ou ultrapassado, e que pode ocorrer sem ser movida por razões ideológicas, mas por uma visão pragmática, baseada em interesses legítimos tanto do ponto de vista econômico como moral.

Nossa prioridade é concluir com êxito as negociações na OMC. Por meio delas, poderemos efetivamente obter a eliminação dos bilionários subsídios à exportação e uma redução significativa do apoio interno à produção agrícola dos países desenvolvidos. Tal eliminação e redução terão efeitos extremamente benéficos aos produtores eficientes do Brasil e de outros países em desenvolvimento, cuja economia depende da agricultura. Serão beneficiados, sobretudo, países pobres da África e de outros continentes, cuja produção mal sobrevive à competição desleal subsidiada.

As concessões que os países desenvolvidos fizerem no setor agrícola serão a chave para o êxito daquela que foi batizada como a "Rodada do Desenvolvimento". Só assim terá expressão concreta a vontade geral de avançar em um tema essencial para os países do Sul e que permaneceu intocado nas rodadas de negociação anteriores. Para o devido enquadramento das negociações na área agrícola, foi um passo importante o acordo (framework) que o G-20,
sob a coordenação do Brasil, conseguiu negociar em Genebra, em julho de 2004 - em termos bem mais equilibrados do que os do texto que pautara a reunião de Cancún, em agosto de 2003.

Nas negociações regionais da Alca e nas inter-regionais, entre o Mercosul e a UE, temos procurado avaliar o interesse nacional de uma perspectiva mais ampla, sem precipitações, nem dilações artificiais. Nunca é demais repetir que só fecharemos um acordo se este for um bom acordo para o Brasil. E um bom acordo não pode servir apenas aos interesses imediatos deste ou daquele setor produtivo, mas, sim, contribuir para o desenvolvimento sustentável da economia brasileira. A idéia de que países em desenvolvimento dispõem de escassa margem de manobra, e que a eles caberia apenas decidir se querem ou não aderir ao que é proposto pelos países desenvolvidos não se sustenta mais, depois de Cancún e Genebra.

Temos clareza de que não podemos comprometer a faculdade do Estado de adotar políticas industriais, tecnológicas, ambientais. A experiência brasileira de participação nas rodadas anteriores do Gatt e do início da OMC serve de alerta para eventuais concessões cujas conseqüências potencialmente danosas só se farão sentir muitos anos depois.

Segundo cálculos do Ipea, se o acordo Mercosul-UE tivesse sido fechado nas bases propostas, em 2004, pelos europeus, os ganhos da Europa superariam em quase 50% os ganhos do Brasil. Tanto o governo, quanto as entidades de representação empresarial fizeram uma cautelosa avaliação da oferta européia. Havia, por exemplo, clara preocupação da Confederação Nacional da Indústria com drawback e regras de origem, bem como dificuldades na área de serviços financeiros. Por outro lado, a oferta da União Européia em produtos agropecuários, limitada a cotas, era altamente insuficiente. Seguimos comprometidos com a continuidade das negociações com a UE em 2005, em busca de bases mais favoráveis e equilibradas. Afinal de contas, a associação inter-regional é considerada estratégica pelos dois lados, que buscam relações internacionais baseadas na multipolaridade, nos campos econômico e político.

No tocante à Alca, chegamos, em Miami, no final de 2003, a um importante entendimento para a reestruturação das negociações. O ano eleitoral nos EUA acabou dificultando o avanço nas negociações. Apesar de não haverem sido concluídos as negociações da Alca ou o acordo com a UE, nosso comércio com os Estados Unidos e a Europa só tem aumentado. Nosso comércio exterior tem-se ampliado de forma global, ainda que em proporção maior para alguns mercados, como é o caso, sem paralelo (aliás, não só para o Brasil), da China.

O comércio brasileiro com a China chega hoje a 8 bilhões de dólares e poderá mais do que duplicar nos próximos cinco anos. Nossa parceria estratégica consolida-se. Em retribuição à visita do Presidente Lula à China, o Presidente Hu veio ao Brasil, em novembro passado, quando foram assinados diversos acordos em áreas que vão do comércio ao combate ao crime organizado, passando por ciência e tecnologia, infra-estrutura e turismo. Continuamos com o bem sucedido programa de construção e lançamento conjunto de satélites.

A Rússia também é um parceiro de grande potencial. Só em 2004, exportamos 500 mil toneladas de carnes para aquele país. O comércio bilateral, de cerca de 2 bilhões de dólares, foi, no ano passado, o maior na história de nossas relações. A visita do Presidente Putin - a primeira de um chefe de Estado russo ao Brasil - abriu campos promissores de colaboração nas áreas espacial, tecnológica e energética.

No que tange à aproximação comercial com países em desenvolvimento de diversas regiões, finalizamos, junto com o Mercosul, acordos com a Índia e a União Aduaneira da África Austral, a qual inclui a República da África do Sul. Estão em curso, também, múltiplas negociações com parceiros tão diferentes quanto o México, o Sistema de Integração Centro-Americano, a Comunidade dos Países do Caribe (Caricom), o Egito, o Marrocos, o Conselho de Cooperação do Golfo e membros em desenvolvimento da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. No mesmo espírito, no contexto da XI Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), realizada em São Paulo, em junho de 2004, examinaram-se as possibilidades de lançamento de uma nova rodada de negociações comerciais no âmbito do Sistema Geral de Preferências entre Países em Desenvolvimento (SGPC).

A erradicação da fome e da pobreza é uma prioridade das agendas interna e externa do governo Lula. Temos clareza em relação aos vínculos desses males com as assimetrias do sistema de comércio internacional. Apenas para citar um dado, o Banco Mundial estima que uma efetiva liberalização do comércio agrícola poderia gerar cerca de US$ 200 bilhões de renda global adicional, o suficiente para retirar mais de 500 milhões de pessoas da situação de pobreza.
Paralelamente aos esforços no campo comercial, é preciso reduzir o déficit que hoje existe no financiamento ao desenvolvimento. Os progressos nesse campo têm sido lentos e desiguais, e a pobreza continua a crescer, principalmente nos países africanos. São poucos os países desenvolvidos comprometidos com o objetivo de canalizar 0,7 de seu PIB à assistência oficial ao desenvolvimento (AOD). Seria irrealista supor que os atuais recursos em AOD venham a aumentar significativamente a curto ou médio prazo. Não se trata apenas de dar assistência, é claro. Por um lado, os países pobres devem melhorar suas condições gerais de governança, inclusive no que tange à maneira pela qual os recursos de cooperação são geridos e gastos; por outro, os países desenvolvidos devem colaborar também por meio de maior acesso a seus mercados, da promoção de investimentos diretos e do alívio da dívida externa.

Com o propósito de colocar a questão da fome e da pobreza no centro da agenda internacional, o Presidente Lula convocou, em setembro último, juntamente com seus homólogos da França, do Chile e da Espanha, com o apoio do Secretário-Geral da ONU, uma reunião em Nova York da qual participaram mais de cinqüenta chefes de Estado e de Governo. Na ocasião, foram apresentados diversos mecanismos inovadores de financiamento do desenvolvimento. Não propusemos nenhum deles como solução única ou definitiva. Abrimos um leque de opções dirigidas a diferentes atores - governos, setor privado, indivíduos. Queremos resolver o problema global do financiamento, o que não poderá ser feito apenas com esforços nacionais. A partir da reunião de Nova York, intensificamos esforços no âmbito das Nações Unidas e de outras instâncias, como o Banco Mundial e o FMI, para que os mecanismos sejam considerados com seriedade e urgência, à luz, inclusive, da avaliação que será feita, em 2005, da implementação das Metas do Milênio.

O fortalecimento da cooperação internacional nos mais diversos campos constitui um dos grandes desafios do presente. O mundo vive ainda sob o impacto da intervenção no Iraque, que, realizada sem o devido respaldo do Conselho de Segurança, teve sérias repercussões para as Nações Unidas. O Brasil procurou contribuir para um encaminhamento pacífico da questão. O Presidente Lula realizou esforços pessoais, em contatos com o Secretário-Geral
Kofi Annan e outras lideranças, inclusive o Papa João Paulo II, para manifestar o sentimento nacional contrário à guerra. Entre as numerosas vítimas da guerra, está o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que honrou o País pelo exemplo de toda uma vida dedicada às Nações Unidas, à causa da paz e do diálogo entre as nações. Mais recentemente, temos envidado esforços para a libertação do engenheiro João José Vasconcelos, seqüestrado em Bagdá.

O Brasil reconhece os riscos reais, para toda a humanidade, de uma intensificação de ameaças como o terrorismo internacional e a proliferação de armas de destruição em massa. Com a consciência de que é preciso, a um só tempo, revitalizar os instrumentos multilaterais e encontrar meios para enfrentar as ameaças contemporâneas, apoiamos os esforços do Secretário-Geral das Nações Unidas de convocar um Painel de Alto Nível para examinar respostas a essas ameaças e encarar o desafio da mudança.

Esse desafio pressupõe uma reforma dos mecanismos de concertação internacional em matéria de paz e segurança. Não é de hoje que se evidenciam os desequilíbrios e limitações da estrutura decisória do Conselho de Segurança da ONU, que já não refletem a realidade contemporânea, a começar pelo fato de que o número de Estados Membros é quase quatro vezes maior do que os Estados fundadores. A situação atual do Conselho expõe, com efeito, um grave e crescente descompasso: a expansão das atribuições do órgão para tratar de temas como terrorismo e não-proliferação, sem a contrapartida da revisão dos desequilíbrios em sua representatividade, tenderia a agravar os questionamentos que se fazem a respeito de suas ações (ou inação) e comprometer-lhes a eficácia.

É nesse contexto que se coloca a aspiração do Brasil a um Conselho de Segurança ampliado, que conte com novos membros, permanentes e não permanentes, com a presença de países em desenvolvimento nas duas categorias. O Brasil já indicou sua disposição de assumir as suas responsabilidades como membro permanente, ao lado de outros países igualmente capazes de agir em nível global e contribuir para a paz e a segurança internacional.

Nos últimos meses, houve nítido progresso nas discussões sobre o assunto, e emerge uma maioria de países favoráveis a uma reforma do Conselho de Segurança que inclua países desenvolvidos e em desenvolvimento como novos membros permanentes. Fator importante para essa aceleração foi, sem dúvida, a união de Brasil, Índia, Alemanha e Japão (o grupo conhecido como G-4) para a coordenação de posições e apoio mútuo às respectivas candidaturas a um assento permanente no Conselho. Países africanos terão naturalmente que ser incluídos. Significativa terá sido a decisão da União Africana em favor da ampliação nos moldes da chamada "opção A", abandonando o conceito de rotação. Há um movimento, impulsionado pelo próprio Secretário-Geral, para que a questão da reforma chegue a um desfecho ainda em 2005, quando se completam sessenta anos de criação das Nações Unidas.

O Brasil deseja um Conselho de Segurança ampliado, no qual possamos defender um enfoque da segurança com base nos vínculos entre paz, desenvolvimento e justiça social. Um Conselho mais representativo, legítimo e eficaz poderá, também, dar um impulso renovado ao tratamento mais equilibrado das questões que maior impacto têm sobre a paz e segurança internacional, entre elas a do Oriente Médio e, particularmente, as chamadas novas ameaças: terrorismo, tráfico de armas e de drogas, proliferação de armas de destruição em massa.

O conjunto de iniciativas do governo na área externa, acima apresentado de forma resumida, revela a disposição do Brasil de contribuir ativamente para a construção da paz e da segurança entre as nações, a partir de uma visão que privilegia o desenvolvimento econômico com justiça social. Nesse espírito, o governo do Presidente Lula continuará a trabalhar para que os benefícios gerados pelo progresso sejam mais amplamente disseminados e que os valores da democracia e da justiça social sejam parte da realidade cotidiana da maioria da população mundial.

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