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Amorim defende financiamentos e diz que integração é boa para o Brasil

Cláudia Trevisan, enviada especial a Brasília

O Brasil não é a Alemanha, mas pode desempenhar na América do Sul um papel semelhante ao que o país teve na integração européia. Essa, pelo menos, é a opinião do ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, que defende o financiamento brasileiro a projetos de infra-estrutura nos países vizinhos.
Amorim diz que o governo já aprovou investimentos de US$ 2 bilhões (R$ 4,8 bilhões) para a integração da região e prevê que os valores podem chegar a US$ 4,4 bilhões (R$ 10,56 bilhões).
"A integração é útil para o Brasil", disse Amorim em entrevista concedida à Folha, na quarta-feira, em Brasília. (CT)
Folha - É possível um país como o Brasil, que tem carências enormes, liderar o processo de integração da infra-estrutura da América do Sul?
Celso Amorim - Eu digo sempre, e acho que esse é o pensamento do presidente Lula, que a integração da América do Sul não é apenas boa para a América do Sul, ela é boa para o Brasil.
Se houver, por exemplo, uma integração melhor no que às vezes é chamado de Arco Norte, que envolve Venezuela, Guiana, Suriname e o Amapá, isso nos ajudará a aproximar o Norte do Nordeste brasileiros. Nós não estamos fazendo isso só por generosidade. A integração é útil para o Brasil.
As rodovias que estão sendo feitas com financiamento parcialmente brasileiro no Peru, por exemplo, são boas para o Acre, para as populações que estão ali em volta. Não há uma dicotomia.
Folha - Em qual estágio esse processo de integração está?
Amorim - O que nós estamos fazendo hoje na América do Sul é algo que na América do Norte ocorreu no século 19, que é uma integração do continente. Embora se diga que o Brasil é um país continental, nós não estamos no Pacífico. E a maioria dos países da região não chega ao Atlântico.
Sua pergunta é se já está ocorrendo? Sim, está ocorrendo. Nós temos projetos aprovados ou em execução no nosso e nos outros países de US$ 2 bilhões e há outros US$ 2,3 bilhões em negociação. O total é de US$ 4,4 bilhões.
Folha - Por que a integração da América do Sul não ocorreu antes?
Amorim - Já ouvi algumas pessoas perguntarem: "Por que nós damos tanta atenção à América do Sul?". E eu respondo: "Porque nós moramos aqui".
Sua pergunta é boa porque ela nos remete a uma questão histórica: por que nós não fizemos isso antes? Você tem que olhar para a história. A rigor essa pergunta deveria ser feita aos governantes que antecederam o atual presidente.
O comércio com a América do Sul era visto como secundário do ângulo brasileiro, diante do comércio com os Estados Unidos, a União Européia ou o Japão. A mesma coisa acontecia nos outros países. Ao iniciarmos esse processo de integração, nós fizemos acordo de livre comércio com todos os países da América do Sul.
Os dados do comércio têm revelado um dinamismo formidável. A América do Sul representou 14% do nosso comércio em 2003, um pouco mais de 16% em 2004 e 18% de janeiro a junho deste ano.
É uma participação crescente em um bolo também crescente. Só no ano passado, nosso comércio com a América do Sul cresceu 54%. Neste ano, cresceu quase 40%. E 91% das exportações são de produtos manufaturados.
Isso também explica por que tem havido atenção crescente à integração. É como a Lei de Say: a oferta cria sua própria demanda.
Folha - O fato de o Brasil ter a América do Sul como prioridade não se traduziu em apoio da maioria de seus vizinhos a duas das principais pretensões do país no cenário internacional: as disputas pela diretoria geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e a presidência do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Amorim - Candidaturas são candidaturas. Quando nós estamos investindo na integração da América do Sul, nós não estamos comprando votos. Na União Européia, freqüentemente há um candidato francês e um candidato alemão para o mesmo posto.
No caso da OMC, havia uma questão de afirmação de uma certa posição, que era muito ligada ao G20 [grupo de países em desenvolvimento que negocia em bloco na OMC].
Ela pode não ter sido bem-sucedida, mas teve o mérito de aprofundar o debate na OMC. O G20, ao contrário de sair enfraquecido, saiu fortalecido. Do ponto de vista dos objetivos da política externa, o Brasil não saiu enfraquecido.
Antes, os ricos se encontravam, decidiam, e depois é que falavam com os outros. Hoje, a conversa envolve Brasil e Índia diretamente. Então, envolve os países em desenvolvimento diretamente.
Folha - Mas o fato de o Brasil ter lançado uma candidatura que não recebeu apoio de seus próprios parceiros naturais não colocou em xeque sua liderança no G20?
Amorim - Eu não estou falando em liderança. Você está falando, mas a resposta vem da prática. Nós fomos agora à China para uma reunião ministerial da OMC, e quem presidiu foi o Brasil. O prestígio do Brasil, para usar uma palavra melhor do que liderança, não foi afetado em nada.
O Brasil não tinha a aspiração de ter a direção geral da OMC para si. Nós queríamos que o G20 tivesse. Eu disse aos nossos amigos argentinos que, se houvesse uma candidatura argentina de peso, nós retiraríamos a nossa.
Nós ficamos numa situação em que decidimos fazer um posicionamento político. Nossa candidatura teve esse sentido. Houve outras na história. Ulysses Guimarães foi candidato à Presidência e perdeu, mas foi importante.
Folha - E o caso do BID?
Amorim - O caso do BID é um pouco mais complexo. O Brasil teve até muito apoio na América do Sul. Não teve integral e eu não sei, por exemplo, por que alguns países do Mercosul votaram na Colômbia, mas é possível que eles tenham trocado o voto por outra coisa. Eu não sei, não posso julgar.
Eu acho que a candidatura do ministro [João] Sayad não foi má. Seria muito difícil derrotar outra candidatura apoiada pelos Estados Unidos [no caso, a do colombiano Luis Alberto Moreno], depois de os Estados Unidos terem perdido na OEA [Organização dos Estados Americanos, para cuja presidência foi eleito o chileno José Miguel Insulza].
Os Estados Unidos perderam a eleição na OEA e perderam para um candidato apoiado pelo Brasil. Por que o Brasil apoiou tanto o Chile naquela ocasião? Porque achamos que era necessário um certo equilíbrio regional.
A OEA é um organismo por natureza desequilibrado, que envolve uma superpotência, outro país desenvolvido, que é o Canadá, e uma porção de países em desenvolvimento. Então, é preciso que a América do Sul esteja presente.
Agora, imaginar que os Estados Unidos iriam perder a OEA e depois não fazer de tudo para ganhar no BID...era difícil.
Folha - Na eleição do BID não ficou clara a dificuldade de o Brasil disputar com os Estados Unidos a influência na América do Sul?
Amorim - É uma análise que você está fazendo. Se você for analisar a questão da OEA, o candidato não era brasileiro, mas foi apoiado pelo Brasil ostensivamente.
Nós não estamos disputando espaço necessariamente com os Estados Unidos. Pode ser que haja algum estrategista no Departamento de Estado pensando dessa maneira, não me surpreenderia, mas acho que nós temos que ver a coisa de outra forma. Aqui na América do Sul nós tratamos da integração. A integração não é um processo fácil, não é um processo linear, mas ela está ocorrendo.
Eu vejo artigos que dizem que o Brasil não está dando prioridade ao Mercosul. Não é verdade. O Brasil tem dado grande importância ao Mercosul. Em termos de comércio, as nossas exportações para a Argentina são recorde.
Agora, a mesma coisa está acontecendo inversamente nas importações? Não está. Então, quando as pessoas dizem, parecendo que descobriram a pólvora, que há uma situação difícil no Mercosul por esse lado, é uma coisa que o próprio presidente Lula disse.
O presidente Lula disse na última reunião do Mercosul que há um mal-estar no bloco. Nós temos que desenvolver políticas industriais comuns, trabalhar mais nas cadeias produtivas.
No longo prazo, para o Brasil, interessa que a América do Sul esteja bem, interessa que os países estejam estáveis. Então, nós temos que comprar mais da Argentina, do Uruguai, do Paraguai.
Folha - Mas como?
Amorim - Facilitando investimentos nossos lá, criando oportunidades dentro da cadeia produtiva. Como é que se deu na União Européia? Você vai à Espanha ou vai a Portugal hoje em dia, não é a Espanha e Portugal de 1950, 1960.
Folha - Mas lá havia a Alemanha, que podia financiar projetos que reduzissem as disparidades regionais.
Amorim - O Brasil pode perfeitamente financiar projetos que sejam bons para o Brasil, do qual participem empresas brasileiras, que sejam úteis para a integração física, que tenham repercussão na nossa economia e também sejam bons para esses países.

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