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Bom dia,

Primeiramente, creio que devo agradecer à cidade de Marraquexe e ao Reino do Marrocos, não somente em meu nome, mas em nome de todos os delegados e, particularmente, em nomes dos delegados latino-americanos aqui presentes. É também para mim uma experiência muito especial, porque estive aqui há onze anos. Tive a oportunidade de assinar, na época, o Acordo de Marraquexe e creio que foi um grande evento não somente do ponto de vista da organização - tudo que o Governo do Reino do Marrocos fez -, mas também um grande evento do ponto de vista histórico, mesmo considerando que podem haver divergências em uma ou outra disposição do acordo da OMC que estamos modificando e aperfeiçoando, a partir do ponto de vista dos países em desenvolvimento. É óbvio que estamos muito melhor com a OMC do que sem a organização. Temos pelo menos um sistema que regula as diferenças, uma normatização internacional, e acho que é nesse espírito de criação de regras e de normas que facilitam o diálogo e a solução pacífica das diferenças que essa hospitalidade marroquina se exprime. Esse pais, que é evidentemente árabe e ao mesmo tempo com uma diversidade de cores, cultura, mesmo de religião, e que é um grande exemplo para nós todos.

É para mim, então, uma honra estar mais uma vez aqui no Marrocos, pais onde tive essa importante experiência e, evidentemente, onde posso aproveitar a beleza da cidade de Marraquexe.

Gostaria de agradecer a meu amigo Mohamed Benaissa e, por intermédio dele, ao Governo do Marrocos, pela decisão de se encarregar dessa Reunião Ministerial, uma vez que ainda estamos iniciando as conversas a respeito dos diferentes aspectos da organização da Cúpula, o que demonstra um forte engajamento, que foi um dos fatores de impulso para a preparação da nossa Cúpula.

É para mim um privilégio dividir essa parte da nossa mesa com um grande amigo da Argélia, Adelaziz Benhaden, que será, é claro, co-presidente - a Argélia será co-presidente da Cúpula no Brasil, com o Presidente Bouteflika. Também com Amra Moussa, que criou, desde os primeiros momentos, as condições para que possamos avançar na idéia da Cúpula. Ele teve a generosidade de me receber duas vezes, além do Presidente Lula. Tive, nessa ocasião, a oportunidade de abordar com nossos colegas árabes, pela primeira vez no âmbito ministerial, os assuntos da Cúpula.

É claro que saúdo a presença de todos os amigos sul-americanos e, em particular, o Presidente Duhalde, ex-Presidente da Argentina e Presidente da Comissão Permanente do MERCOSUL.

Já que tudo foi dito sobre os objetivos e o conteúdo dos documentos que espero sejam submetidos aos nossos Chefes de Estado, gostaria de fazer alguns comentários pessoais, que exprimem também, eu espero, o pensamento do Presidente Lula sobre o assunto.

Lembro-me, quando estávamos no inicio do nosso Governo, quando, em viagem que havíamos feito ao exterior, o Presidente Lula falou pela primeira vez sobre a possibilidade de reunião com o mundo árabe. Estávamos ao mesmo tempo fortalecendo a integração sul-americana. Por causa disso, essa idéia que teve início por impulso do Presidente do Brasil, foi proposta, desde os primeiros momentos, como possibilidade de uma reunião sul-americana e do mundo árabe. Essa idéia é justamente interessante porque, talvez vocês tenham percebido pelo próprio Presidente Lula ou de mim mesmo, quando falo em seu nome, sempre falamos de uma nova geografia econômica e comercial no mundo, o que evidentemente tem muita ressonância política, a qual altera a geopolítica ou a geo-economia mundial, além da maneira pela qual organizamos o comércio. É interessante notar que essas duas experiências já estavam ao mesmo tempo no espírito do Presidente Lula. Eis a idéia da Cúpula Países Árabes-América do Sul e de uma nova geografia comercial. E por qual razão? Porque são duas regiões importantes no mundo em desenvolvimento, de regiões que já têm muito em comum, pelas tradições, pela migração, pelas influências culturais recíprocas. De certa forma, foi a cultura árabe que influenciou a cultura sul-americana e, entretanto, não tinham esses dois mundos ligações concretas e poucas ligações políticas.

Trata-se, então, da idéia de construir um edifício de cooperação baseado na visão e nas tradições comuns, sem deixar de lado nossas tradicionais e evidentes relações com os paises desenvolvidos, que devem continuar e mesmo se aperfeiçoarem e se aprofundarem, e de começar a olhar de maneira concreta as potencialidades que existem nas relações entre nossas duas regiões. Não se trata de algo abstrato. Não é, diríamos, para ter posições comuns em relação aos grandes problemas mundiais. Evidentemente o faremos também. É também uma chance de criarmos uma verdadeira cooperação, uma cooperação concreta entre duas grandes regiões do mundo em desenvolvimento e, justamente, essas duas grandes regiões que tinham, é claro, contatos bilaterais entre os países, além de bons contatos nas Nações Unidas, mas nunca houve um esforço de traçar os caminhos das regiões em conjunto.

Creio que, para o Presidente Lula, esse aspecto de fazer alguma coisa que poderia ter influência na política mundial é muito importante, quando normalmente falamos muito do Norte-Sul e do Sul-Sul. Mas a realidade é que o Sul esta sempre olhando para o Norte e pedindo coisas ao Norte, e nós fazemos relativamente pouco entre nós.

É nesse espirito que o Presidente Lula também lutou pela integração sul-americana, da mesma forma que se fala, no mundo árabe atualmente, cada vez mais da integração árabe. Tive o privilégio de ter sido convidado, pelo Presidente Bouteflika, para a Cúpula árabe, e pude ver como a palavra integração, assim como a palavra livre comércio, tornou-se importante entre os paises árabes. É evidente que o fortalecimento vai muito além do aspecto puramente econômico e comercial. Trata-se de um diálogo de futuro. Fala-se muito em aliança de civilizações, e nós a apoiamos. Ela faz parte de nosso compromisso também. Mas, do meu ponto de vista, francamente penso que se trata de oportunidade para fazer uma aliança de civilizações, porque, na realidade, a civilização árabe já é parte de nossa civilização. A civilização sul-americana ou latino americana seria incompreensível e não saberia quem é se não tivesse tido a influência e a contribuição do mundo árabe, primeiro via a Península Ibérica e os grandes filósofos - os Averroes, os Ibn Sina, e a arte de toda a Península Ibérica, ainda vistas na América do Sul. Ao visitar a América do Sul, por exemplo, vê-se os elementos da arquitetura, os moucharrabieh que vieram, obviamente, do mundo árabe, além da música em tudo. Então, quando falamos em diálogos de civilizações, devemos considerar que a civilização árabe está profundamente ligada à nossa civilização. Nós não compreenderíamos nossa civilização sem olhar para a civilização árabe.

Vivem me dizendo que os marroquinos e os argelinos conhecem bem a literatura brasileira, falam de Jorge Amado. Mas há outros. Jorge Amado escreveu romances brasileiros que têm sempre personagens injustamente chamados de turcos, porque, como vocês sabem, nessa época eles entravam na América do Sul com passaporte otomano. E eles fazem parte da nossa cultura.

Isso é apenas um exemplo. Não vou me ater aos detalhes. Evidentemente, temos a declaração, nós vamos aprová-la. Se ainda restar algum detalhe, que não será mais do que detalhe, será certamente retificada . Creio que o mais importante é não ver a Cúpula como o ponto de chegada. A Cúpula é um ponto de partida. A Cúpula é apenas o começo. Não é o fim. A declaração desta Cúpula não é o nosso objetivo. É claro que ela tem de ser feita, é natural, porque nós temos uma Cúpula, e temos de dizer porque estamos aqui. É normal. Mas é preciso olhar o futuro. E digo uma coisa, não é um sonho. Falo de coisas muito concretas. Creio que a Cúpula, mesmo antes de acontecer, já é um sucesso. As relações entre os países árabes e os países sul-americanos aumentaram muito nos últimos meses. Aconteceram muitas visitas de altas autoridades, de Presidentes, de Ministros das Relações Exteriores, ao menos de nosso país aos países árabes. Foi um movimento que nunca acontecera antes. Não quero atribuir tudo à Cúpula, mas é evidente que ela ajuda a criar um clima favorável.

Ao mesmo tempo, no que diz respeito aos negócios, o comércio entre o Brasil - falo do Brasil porque conheço melhor suas estatísticas - e o mundo árabe aumentaram 50% em um ano, nos dois sentidos. Então, não é algo a nosso favor ou a favor do mundo árabe. Aumentou nos dois sentidos, importação e exportação. Não exatamente equilibrada com todos, mas, de qualquer maneira, o conjunto foi suficientemente equilibrado. 50% não é pouca coisa. Mesmo nos assuntos econômicos, muito rapidamente, gostaria de dizer que é interessante, porque, ao pensar em comércio com os latinos, os sul-americanos pensaram "eles estão interessados nos investimentos árabes". É verdade, estamos interessados nesses investimentos. A verdade é que nos últimos 12 meses após a primeira visita do Presidente Lula a alguns países da região, o que vejo é sobretudo investimentos brasileiros nos países árabes. Petróleo na Argélia, mineração na Arábia Saudita, e muitos outros. Menciono apenas dois ou três. Mas acho que se trata de um movimento nos dois sentidos com, naturalmente, o forte componente cultural já mencionado.

Quando poderíamos pensar em realizar um seminário sobre a utilização de terrenos semi-desérticos, que é um problema que diz respeito a praticamente todos nós, se não houvesse a Cúpula como motivação?

Quando faríamos um Seminário Cultural como o que acabou de acontecer em Marraquexe, ou o Festival de Cinema que acontecerá no Brasil, organizado pelos tunisianos, se não houvesse esse impulso vindo da Cúpula?

É por isso que digo que a Cúpula lançou um movimento de aproximação política, econômica e cultural. Esse é o primeiro passo.

É preciso, evidentemente, que nós nos compreendamos, e acho também que se trata de algo coisa muito positivo que as duas regiões se vejam não como um problema, mas como uma fonte de soluções, uma fonte de construção, uma fonte de criatividade, e é sob esse ângulo que gostaria que todos vissem a Cúpula.

Quase todos os Ministros árabes que estão aqui tiveram muita paciência em me ouvir, alguns há alguns meses, reiterando o convite do Presidente Lula. A mídia, porém, não lerá os detalhes da nossa Declaração. Ela repete o que dissemos na Assembléia Geral, ela repercute o que falamos nas nossas reuniões, mas ela verá todos os líderes que estarão presentes. Eis a verdadeira medida do nosso sucesso, a verdadeira medida da nossa possibilidade, de como queremos continuar esse esforço.

Gostaria, com essas palavras, de exprimir nossa esperança e agradecer a todos que trabalharam para seu sucesso e, se me permitem, terminar com um pensamento.

Imagino um historiador do futuro que analisa esse esforço que vivemos. Penso, evidentemente, nessa reunião. Não se trata de um terremoto, mas precisamente de um pequeno movimento sísmico que será registrado pelos historiadores. E é por isso que conto, assim como meus colegas, com a colaboração de todos.

Obrigado.

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