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Ana Maria Tahan e Luiz Orlando Carneiro

BRASÍLIA - O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, é um diplomata inquieto. E entusiasmado. Gosta do estilo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e comunga da paixão pela América do Sul e tudo que isso envolve: Mercosul, relações culturais, afinidades, proximidade, intercâmbio. Ele mergulhou nas ênfases e preferências do modo petista de governar e defende, com convicção, a tese de que, no campo diplomático, a relação do Brasil com cada país deve se desenvolver de igual para igual. Assim, se os Estados Unidos cobram US$ 100 para conceder visto de entrada para brasileiros, o Brasil tem de cobrar valor igual de americanos interessados em visitar o país. O mesmo raciocínio vale no campo comercial. Os americanos transferem para a Organização Mundial do Comércio (OMC) decisões sobre subsídios agrícolas? Então, o Brasil faz o mesmo. "Não podemos colocar todos os ovos na cesta da Alca", brinca Amorim. "Até porque o nome não combina. O organismo não é livre e nem trata apenas de comércio." Leitor do filósofo francês Jean-Paul Sartre e fluente em inglês, francês e espanhol, o chanceler recebeu o Jornal do Brasil no gabinete do Itamaraty, ontem, durante uma manhã de agenda apertada. No encontro, assegurou não ter defendido o "engajamento" -uma palavra da qual gosta muito - ideológico do ministério em discurso durante a posse do subsecretário-geral da América do Sul e diretores.

Ação política

É preciso uma afinidade das pessoas que trabalham no governo com a orientação política desse governo. É como num time de futebol: se não se tem entusiasmo pelo esquema de jogo pode-se ser o maior craque, mas não funciona.

Falta de entusiasmo

Certas pessoas têm mais, outras têm menos. Nunca pedirei atestado ideológico de ninguém no Itamaraty. Mas é lógico que, se desenvolvo uma política que dá prioridade à África, por exemplo, não posso colocar como subsecretário de Assuntos Políticos alguém que não veja nisso uma prioridade. Ele faria isso burocraticamente. As pessoas aqui são funcionários de Estado, cumprem ordens , seguem as orientações. É claro, porém, que se há identificação com a política, agirá com mais entusiasmo.

Harmonia

Existe o Estado e o governo. Querer dizer que a política externa é só do Estado, não é do governo, é uma visão até sociologicamente errada. Governos têm políticas, ênfases diferentes em aspectos diferentes. Nunca haverá, nessa administração, punição por motivo ideológico nem por opinião. É claro, contudo, que se tende a trabalhar melhor com pessoas que têm afinidade de pensamento com você.

Viagens

Ministro de Exterior, se não está despachando com o presidente da República, se não está em reunião ministerial, recebendo um visitante estrangeiro ou ajudando o presidente a receber, tem de estar viajando, onde as coisas se passam. Quando o presidente Lula estava em Washington, fui para o Egito, depois para Amã, depois voltei ao Egito, fui ao Líbano e desembarquei no Brasil a tempo de embarcar com o presidente para Medelín. Tudo em sete dias. Todas as visitas, minhas e do presidente Lula, têm um objetivo. Elas se realizam num momento em que estamos envolvidos em vários processos complexos: negociação da Alca, integração da América do Sul, consolidação do Mercosul, negociações com a União Européia, a possibilidade de reforma do Conselho de Segurança da ONU. E tudo tem de ser feito rápido. Existe uma demanda por Lula muito maior que a oferta. Não são convites formais, são demandas insistentes.

Prioridades diplomáticas

Como dizia Carlos Drummond de Andrade, o mundo é vasto e complexo. O presidente Lula tem sido muito claro, a prioridade é a América do Sul. É a área que tem relação mais direta com nosso desenvolvimento econômico e social e onde o Brasil pode ter um impacto positivo e compor-se com países cuja evolução também tenham um impacto imediato no Brasil.

América do Sul

O Mercosul é o que existe de mais concreto e o que desejamos aprofundar de forma imediata. Nossa relação com a Argentina é estratégica e importante. É fundamental que a Argentina vá bem, assim como é fundamental que o Brasil vá bem. Em nossa relação com os argentinos não há área de sombra. É de uma franqueza como raras vezes vi. Em relação ao Mercosul, o Brasil, sendo a maior economia e o maior país, tem de demonstrar generosidade com os outros parceiros. Não pode ser mesquinho, não pode querer impor cotas. Temos agora, por exemplo, uma medida relativa ao abastecimento de arroz. Se tivermos de fazer uma importação de emergência, a uma certa cota, faremos conversando com nossos parceiros, no caso o Uruguai. Houve o caso dos pneus recauchutados. Havia um interesse protecionista, sim. O Uruguai e o Paraguai juntos produzem 1% do mercado de pneus recauchutados no Brasil e 0,1% do total geral do mercado brasileiro. Não tenho de ficar preocupado com a importação de pneus de nossos vizinhos, e sim com os da União Européia. Havia uma decisão que o Brasil não estava cumprindo. Como podemos criticar os Estados Unidos e a União Européia por tomar decisões unilaterais, se nos comportarmos da mesma forma com nossos parceiros?

Mercosul e Alca

Não temos interesses em discutir a questão de tarifas apenas na Organização Mundial do Comércio. Queremos debater o assunto também na Alca. Afinal, os Estados Unidos são um mercado importante para as exportações brasileiras. No fundo, nesse quesito, há até um erro de nomenclatura. Chamamos de acordo de livre comércio das Américas. Primeiro, não é só comércio, inclui propriedade intelectual, normas de investimento, regras para compras governamentais, serviços. E, depois, não é totalmente livre, mas isso é outro capítulo. O problema das tarifas será discutido com atenção, com preservação de tempo para a indústria brasileira se adaptar, com a criação de fundos de compensação, como existem na União Européia. A dificuldade é que os Estados Unidos estão excluindo grandes temas do âmbito da Alca. Não querem, por exemplo, discutir livre-arbítrio e as políticas antidumping. Dizem que isso vão levar à OMC. Nós também. Não é errado, eles estão defendendo seus interesses. O problema nosso é que o brasileiro se envergonha de defender o interesse nacional. Para nós não interessa também discutir propriedade intelectual ou compras governamentais no contexto da Alca, porque a configuração aqui não nos é favorável.

Integração

Estamos discutindo com todos os presidentes da América do Sul a execução de projeto de integração da região. Isso é tão importante que, nos últimos sete meses, 12 presidentes de países sul-americanos estiveram no Brasil. Isso nunca aconteceu antes. Somos um continente em que as artérias estão interrompidas. Faltam rodovias, ferrovias. Com a economia mundial em recessão, quem sabe projetos de integração sul-americanos não venham a ser investimentos produtivos e interessantes? Isso talvez até ajude na redinamização da economia. Vamos construir um projeto sul-americano.

Estados Unidos, Europa

O Brasil precisa manter relações com os Estados Unidos, precisa de investimentos e do mercado americanos. Mas, estrategicamente, para nós é importante estreitar as relações com a Europa também. Não podemos colocar todos os nossos ovos na cesta da Alca. Nesse contexto, para nós é importante também estreitar as relações com os países em desenvolvimento. Fizemos uma reunião de Índia, África do Sul e Brasil, grupo que já vem sendo chamado de G-3. E tenho ouvido muito se vamos abrir o G-3 para outros países. E ainda temos outras prioridades, como a China e a Rússia, que ainda não tivemos condições de desenvolver.

África

Política externa se faz olhando para o futuro, para a projeção do Brasil. E, nessa projeção, nossos interesses na África vão aumentar. Econômicos, políticos, até de segurança. Por isso o presidente está indo para cinco países africanos no dia 8 (São Tomé, Angola, Moçambique, África do Sul e Namíbia). Estamos abrindo uma embaixada em São Tomé. Por isso teremos, na medida em que os recursos permitirem, outras embaixadas, como na República do Congo; um dos países mais ricos e populosos da África ;, em Cameroun, na sede da União Africana, na Etiópia, e na Tanzânia. Há uma verdadeira sede de Brasil nesses países, a sensação de que o Brasil é um grande parceiro ausente.

Cuba

O fim do embargo dos Estados Unidos a Cuba ajudaria muito a abrir a discussão em torno da redemocratização daquele país. Uma política de cooperação, construtiva, é sempre melhor que uma de isolamento. Quanto mais se isola um país, mais se enrijecem as estruturas internas. Por isso temos uma política de solidariedade com uma nação latino-americana que há 40 anos sofre com um embargo com o qual não concordamos. Nós temos conversado sobre certos gestos. Por exemplo, somos contra a pena de morte, contra julgamentos sumários. Mas há certos limites a respeitar. Não podemos substituir o povo e os dirigentes cubanos, mas podemos contribuir para uma atmosfera mais positiva.

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