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A Coordenação-Geral de Patrimônio Histórico (CGPH) publica neste Espaço da Memória informações sobre as obras pertencentes ao acervo do Itamaraty. 

 Foto: Themis Salem. Disponível em:
https://www.flickr.com/photos/mrebrasil/13946456836

 

De autoria do paisagista e artista plástico Roberto Burle Marx, a tapeçaria em lã intitulada "Vegetação do Planalto Central" está exposta na Sala Brasília do Palácio Itamaraty.


Formada por cinco peças em lã, a tapeçaria tem ao todo 25 metros de largura e apresenta imagens, formas geométricas e cores que remetem à vegetação típica de regiões áridas, com predominância de troncos finos com galhos secos, e cactos, dispostos na obra na posição vertical. Apesar de não haver uma cor predominante, os tons terrosos pretendem fazer uma alusão ao clima da região.


Produzida especialmente para o Palácio Itamaraty, cuja construção visava representar o melhor da criatividade brasileira, a tapeçaria foi tecida pelo Ateliê de Norberto Nicola durante 18 meses. O Embaixador Wladimir Murtinho comenta em uma entrevista1 sobre o processo de produção da tapeçaria:


“Então ele veio, mas além do jardim, eu dei a ele a possibilidade, a grande alegria, de fazer a tapeçaria que está na sala de jantar, isso é muito importante dizer pelo seguinte, você tem um jardim feito pelo Burle Marx, e nos fundos, como se fosse um pano de tear, um pano de fundo, está atualmente a grande tapeçaria. Essa tapeçaria é a maior tapeçaria que tem aqui no país, não? É uma tapeçaria de 22 metros, por quatro e meio, é uma coisa gigantesca, não? E que representava um enorme problema de encomenda. Ele deu os desenhos e entregou a Norberto Nicola. Norberto Nicola é um tapeceiro muito famoso, que hoje se especializou porque ele coleciona arte plumária. O Norberto teve aí a chance da vida dele. Para o Roberto também representava a execução de uma tapeçaria em grande escala”. (MURTINHO, op.cit, p. 31)


Na acepção clássica da palavra, o termo tapeçaria designa tecelagem feita para decorar parede, podendo ser confeccionada no tear ou bordada a mão com fios de lã, seda ou qualquer outro tipo de fibra. A partir de um movimento que reivindicou e buscou estabelecer uma ampliação na forma e liberdade para essa arte – liderado por artistas plásticos na segunda metade do século XX2 – o termo tapeçaria passaria a incorporar toda criação artística produzida com qualquer tipo de tecido, fios ou fibras, através dos mais diversos tipos de técnicas. Os estudiosos da tapeçaria artística ocidental a classificaram em três tipos conforme diferentes épocas: a tapeçaria gótica, que vai do século XII ao século XVI; a tapeçaria clássica, do século XVI ao começo do século XX; e a tapeçaria moderna ou contemporânea.


Conhecido sobretudo como um dos mais célebres paisagistas do Brasil e do mundo, Roberto Burle Marx desenvolveu relevante produção artística – em pinturas, desenhos, gravuras, cenários, tapeçarias, esculturas e desenhos de joias –, coerente e consistente com os princípios das vanguardas artísticas do movimento moderno. Foi ele o responsável por diversos parques e áreas públicas em Brasília e outras cidades brasileiras. Para o Palácio Itamaraty, desenhou o jardim aquático externo e vários jardins internos localizados no complexo arquitetônico que compõe o Ministério.


Dentre os salões de recepção do Palácio Itamaraty, a Sala Brasília é destinada a recepções maiores tais como almoços, jantares e banquetes. Nessas ocasiões acontecem atividades protocolares, e constituem, sobretudo, oportunidade de estabelecimento de contatos pessoais diretos, negociações e celebrações. O salão, que comporta cerca de 500 pessoas, é palco de programações oficiais das visitas de delegações estrangeiras, autoridades e representantes da sociedade nacional. A representação está na essência da atividade diplomática. A existência de espaços específicos para a recepção de público e cerimônias, com obras de arte, design e mobiliário que desempenham função ornamental e representativa, é de grande importância para a construção de imagem que corrobora a finalidade protocolar desses espaços.


Na tapeçaria desenhada por Burle Marx é possível perceber como o artista faz referência à concepção de ambientes diferenciados, e relaciona a forma da vegetação à configuração dos espaços, sendo esta tendência característica marcante em suas obras. Outro aspecto importante no contexto histórico da produção da obra é o movimento existente de inter-relação entre artes plásticas e arquitetura, tendo inicialmente como característica própria a utilização do trabalho conjunto de arquitetos, artistas plásticos, escultores e paisagistas. Esse conceito esteve muito presente no programa arquitetônico da nova sede do Ministério em Brasília, e na Arquitetura Moderna brasileira:


“Na década de 1950, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, uma série de obras arquitetônicas surge como resultado da hipótese de integração entre as artes através da arquitetura e da participação social do artista na constituição do ambiente urbano. A arquitetura realizada a partir destas formulações irá fornecer à cidade obras onde a arte participa do espaço público, colorindo-a com painéis e murais, reveladores do imaginário do período. Arte pública, que qualifica o espaço urbano e se oferece acessível aos seus habitantes”. (FERNANDES, 2006, p.07).


Com vistas às transformações do espaço público como instaurador e marco simbólico de um novo tempo, a obra revela a maneira como o artista insere na representação imagética elementos da paisagem e regionalismo brasileiros, por meio de linguagem baseada na sua vivência, marcada pela sensibilidade entre natureza e cultura.

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[1] Entrevista concedida pelo embaixador Wladimir Murtinho ao Projeto Memória da Construção de Brasília em 1990. 

[2] História da tapeçaria artística ocidental até o início do século XX, quando ocorre o renascimento dessa expressão artística a partir da renovação estética proposta por alguns artistas modernos. (GRADIM, p. 157, 2018)

 

REFERÊNCIAS
FERNANDES, Fernanda. A Síntese das Artes e a Moderna Arquitetura Brasileira dos anos 1950. Cadernos de Pós-Graduação da UNICAMP, v. 8. Campinas: UNICAMP, 2006.
GRADIM, Maria Isabel de Souza. A tapeçaria no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Maria Isabel de Souza Gradim; Paulo Teixeira Lumatti; orientador; Jaime Tadeu Oliva; Coorientador. São Paulo 2018.
MURTINHO, Wladimir do Amaral. Depoimento - Programa de História Oral. Brasília, Arquivo Público do Distrito Federal, 1990.

 

 

 

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