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A Fundação Alexandre de Gusmão e a Comissão RE50 (Cinquentenário do Palácio Itamaraty, Brasília) realizaram, em 19 e 20 de outubro de 2017, o seminário internacional «Palácios: Expressão Espacial do Poder Político», no Palácio Itamaraty, em Brasília.

O evento propôs uma discussão sobre os palácios enquanto fenômeno arquitetônico e social a partir da análise dos programas de edificação de palácios erigidos em diferentes épocas e sistemas políticos, de Versalhes às sedes de organismos internacionais.

A primeira sessão foi consagrada ao exame de alguns edifícios palacianos a partir do triplo programa (simbólico, social e funcional). Na segunda sessão, a discussão ampliou-se para a relação do palácio com a pólis, enquanto centro de decisões de poder e palco e símbolo do jogo de forças do corpo político que o investe. Uma terceira sessão tratou dos interiores palacianos, suas obras de arte e seu mobiliário.

Já na quarta sessão discutiu-se a definição de palácio e das abordagens metodológicas que permitem abarcar o palácio enquanto fenômeno arquitetônico, social e estético. Nessa sessão, foi apresentada a experiência do Centro de Pesquisa do Castelo de Versalhes, que estuda a sede da monarquia francesa nos séculos XVII e XVIII por meio de uma abordagem multidisciplinar, que vai dos estudos arquitetônicos à musicologia.

A última sessão foi dedicada a uma discussão sobre o futuro dos palácios. As novas tecnologias e novas formas de comunicação, baseadas na imaterialidade da imagem e na velocidade e informalidade das redes virtuais, acarretam importantes mudanças na forma de representação do poder estatal. As cerimônias deixam de ser organizadas em função dos assistentes, passando a atender aos imperativos da fotografia e da televisão, que aproximam a autoridade do espectador. Busca-se não mais impor o temor reverencial, mas a aproximação carismática do líder com a população. Essas transformações acarretam importantes mudanças não somente no funcionamento espacial dos palácios, mas na sua própria função dentro do aparato simbólico do Estado.

Leia aqui o concept paper do seminário.

 


PROGRAMA DO SEMINÁRIO

19 DE OUTUBRO DE 2017

 

SESSÃO DE ABERTURA

OS PROGRAMAS ARQUITETÔNICOS DOS PALÁCIOS E SUA RELAÇÃO COM A REPRESENTAÇÃO DO PODER E DA NAÇÃO

Abertura da sessão
A arquitetura do Palácio Itamaraty  (Eduardo Rossetti)
Versalhes, um lugar para o absolutismo  (Gérard Sabatier)
Lugares de poder: visão e ambição nos palácios presidenciais de Âncara (Zeynep Kezer)

O PALÁCIO NA POLIS

Abertura da sessão
Os palácios originais de Brasília (Élcio Gomes da Silva)
O Palácio e a Pólis – Fatehpur Sikri e Chandigarh (Kazi Ashraf)
Espaços para a diplomacia nas Américas (Fernando Lara)
Em busca de uma definição de Palácio na África (Nnamdi Elleh)

OS INTERIORES DOS PALÁCIOS – REPRESENTAÇÃO DA AUTORIDADE POLÍTICA E IDENTIDADE NACIONAL

Mobiliário palaciano – o caso do Palácio Itamaraty (Heitor Granafei)
Política de mobiliário nos interiores do pós-guerra (Fredie Floré)
Arte no Palácio Itamaraty, símbolo de identidade (Graça Ramos)

POR UMA DEFINIÇÃO DE PALÁCIO

Modernismo e monumentalidade (Carlos Eduardo Comas)
A experiência do Centre de Recherches du Château de Versailles (CRCV) (Gérard Sabatier)
Precedentes e composição na Arquitetura Palaciana na segunda metade do século XIX (Pedro Paulo Palazzo)

O FUTURO DOS PALÁCIOS

Abertura da sessão
O futuro dos palácios na era das novas tecnologias e novas formas de comunicação (Alan Marques)
Os palácios como patrimônio moderno (Andrey Schlee)


  

11H00 – SESSÃO DE ABERTURA

 

 

12H00 – INTERVALO

 

14H00 – PRIMEIRA SESSÃO: OS PROGRAMAS ARQUITETÔNICOS DOS PALÁCIOS E SUA RELAÇÃO COM A REPRESENTAÇÃO DO PODER E DA NAÇÃO

Abertura da sessão

 

A arquitetura do Palácio Itamaraty

Eduardo Rossetti

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de Brasília

 

 

Versalhes, um lugar para o absolutismo

Gérard Sabatier

Centre de Recherches du Château de Versailles/Universidade de Grenoble

 

Lugares de poder: visão e ambição nos palácios presidenciais de Âncara

Zeynep Kezer

Universidade de Newcastle

 

16H00 – SEGUNDA SESSÃO: O PALÁCIO NA POLIS

 

Abertura da sessão

 

Os palácios originais de Brasília

Élcio Gomes da Silva

Câmara dos Deputados / Universidade de Brasília

 

O Palácio e a Pólis – Fatehpur Sikri e Chandigarh

Kazi Ashraf

Bengal Institute of Architecture, Landscapes and Settlements

 

 

Espaços para a diplomacia nas Américas

Fernando Lara

Universidade Federal de Minas Gerais/ Universidade do Texas

 

 

Em busca de uma definição de Palácio na África

Nnamdi Elleh

Autor de “African Architecture: Evolution and Transformation”, “Architecture and Power in Africa” e “Architecture and Power in Nigeria”

 

Debate e encerramento da primeira sessão

 

 

 

20 DE OUTUBRO DE 2017

 

11H30 – TERCEIRA SESSÃO: OS INTERIORES DOS PALÁCIOS – REPRESENTAÇÃO DA AUTORIDADE POLÍTICA E IDENTIDADE NACIONAL

 

Mobiliário palaciano – o caso do Palácio Itamaraty

Heitor Granafei

Secretário-Executivo da Comissão RE50

 

Política de mobiliário nos interiores do pós-guerra

Fredie Floré

Universidade de Leuven

 

 

Arte no Palácio Itamaraty, símbolo de identidade

Graça Ramos

Doutora em História da Arte – Universidade de Barcelona

 

 

 

13H00 – INTERVALO

 

14H00 – QUARTA SESSÃO: POR UMA DEFINIÇÃO DE PALÁCIO

 

Por uma definição de palácio

Carlos Eduardo Comas

Universidade do Rio Grande do Sul

 

A experiência do Centre de Recherches du Château de Versailles (CRCV)

Gérard Sabatier

Centre de Recherches du Château de Versailles / Universidade de Grenoble

 

Precedentes e composição na Arquitetura Palaciana na segunda metade do século XIX

Pedro Paulo Palazzo

Universidade de Brasília

 

 

16H00 – QUINTA SESSÃO - O FUTURO DOS PALÁCIOS

Moderador: Conselheiro Guilherme Conduru

Diretor do Museu Histórico e Diplomático

 

Abertura da sessão

 

 

O futuro dos palácios na era das novas tecnologias e novas formas de comunicação

Alan Marques

UNICEUB/Fotógrafo

 

 

Os palácios como patrimônio moderno

Andrey Schlee

IPHAN

 

 

DEBATE LIVRE

  


CONCEPT PAPER

 

Todo poder político estruturado e estabelecido numa cidade-capital se exerce a partir de uma edificação do tipo palaciano.

Como afirma Norbert Elias, todas as unidades sociais ou formas de integração humana podem ser caracterizadas por arranjos espaciais, das quais são a representação tangível 1 . Compreender os Palácios significa, portanto, compreender a organização e o exercício do poder político, por meio de um dos seus mais concretos símbolos.

Porém o palácio, enquanto categoria arquitetônica e fenômeno social, ainda é insuficientemente estudado, especialmente no século XX.

A literatura acadêmica tende a abordar esses edifícios no contexto das discussões sobre as relações entre arquitetura e o poder, seja ele de natureza política, econômica, religiosa ou ideológica. Em geral, faz-se pouca distinção entre palácios, castelos, cidadelas, monumentos, templos, residências senhoriais e, atualmente, museus, edifícios administrativos ou comerciais e qualquer outra edificação de natureza representativa, ou cujas grandes dimensões não derivem de necessidades estritamente funcionais.

Ademais, inspiradas pelo espírito igualitário e utilitário do projeto modernista e por questões identitárias suscitadas pelo processo de descolonização e pela traumática integração de povos inteiros à economia global e ao Estado moderno, as análises frequentemente enveredam por considerações valorativas sobre (in)autenticidade, escalas (des)humanas, gratuidade, ostentação, e nos habituais binômios universal x local, tradicional x moderno, numa tentativa de encontrar a justa medida da expressão do poder e da identidade nacional por meio da arquitetura. Tais questões se refletem, por exemplo, na difícil relação da crítica internacional com o projeto de Brasília.

Tais considerações pouco contribuem para a efetiva compreensão desta categoria particular de edificação, ubíqua em nossos sistemas políticos, e que, sem prejuízo de suas qualidades simbólicas, cumpre funções bastante concretas, abrigando espaços para trabalho, audiências, refeições coletivas, apresentações artísticas e, finalmente, para habitação.

Um palácio, porém, não se confunde com um edifício de escritórios ou um centro de convenções, ainda que tenham dimensões monumentais.

Um dos elementos que diferencia e singulariza os palácios é que se pode chamar de triplo programa arquitetônico:

a)   o primeiro, de natureza simbólica, determina a escala grandiosa, a riqueza e carga simbólica do acervo artístico e dos interiores e a implantação urbana do Palácio.

b)  o segundo, de natureza social, é determinado pelos grandes rituais políticos e por pequenos mecanismos cotidianos de distinção que se desenvolvem em torno da autoridade política. São as considerações de cerimonial, de comunicação social e de segurança que ora restringem o acesso ao soberano, ora o expõem ao escrutínio público. Esses condicionantes determinam a existência de grandes salões, passagens exclusivas, e todo tipo de dispositivo espacial que escande o acesso à autoridade: salas de guarda, salas de secretárias, etc.

c) o terceiro é o programa arquitetônico propriamente dito, solicitado pela autoridade ou proposto pelo arquiteto, e que envolve os aspectos funcionais do Palácio.

A compreensão do funcionamento espacial de um palácio, portanto, é indissociável do conhecimento de sua carga simbólica e dos ritos políticos e de distinção de seus ocupantes.

Da mesma forma, os interiores palacianos estão sujeitos a condicionantes de ordem simbólica e protocolar. As obras de arte, muitas das quais integradas às estruturas, além de uma importante função decorativa, comunicam valores e ideais e interpretam, ou mesmo reescrevem, a história e a identidade do corpo político.

Para o mobiliário, trata-se de compor o cenário de cerimônias públicas ou de momentos privados ritualizados, distribuindo espacialmente os participantes e induzindo-lhes os corpos a posições eretas e altivas. Em ambiente palaciano, ações cotidianas como tomar a palavra ou calar-se, esperar ou fazer-se esperar, sentar-se ou levantar-se, deslocar-se ou manter-se imóvel, entrar ou sair adquirem a dimensão de sinais de poder político.

Um ponto de partida promissor para uma metodologia de estudo dos palácios são alguns estudos realizados sobre edifícios do renascimento e do início da idade moderna, que analisam a arquitetura em conjunto com a vida social (H. M. Baillie – Etiquette and the Planning of the State Apartments in Baroque Palaces; Monique Chatenet – La Cour de France au XVIème siècle: vie sociale et architecture; Public Buildings in Early Modern Europe; Gérard Sabatier – Le Palais d’État en Europe, de la Renaissance au Grand Siècle ; Lieux de pouvoir et résidences royales en France, XVème - XVIIème siècles)2.

Naqueles casos, um conhecimento aprofundado da vida social da época é essencial, uma vez que, com o passar do tempo e a mudança nos hábitos, os espaços perdem a funcionalidade, e a distribuição dos espaços parece arbitrária ao olhar contemporâneo. Basta lembrar que no século XVII, os soberanos concediam audiências e realizava reuniões em seu quarto de dormir.

No que se refere aos palácios modernos, a proximidade temporal e geográfica tende a ofuscar o fato de que os ritos políticos e de distinção que determinam o funcionamento espacial desses edifícios continuam sendo o privilégio de poucos.

O seminário "Palácios: expressão espacial do poder político" propõe uma discussão sobre os Palácios enquanto fenômeno arquitetônico e social a partir da análise dos programas de edificações palacianas construídas em diferentes épocas e sistemas políticos, de Versalhes às sedes de organismos internacionais.

A primeira sessão será consagrada ao exame de alguns edifícios palacianos a partir do triplo programa (simbólico, social e funcional). Na segunda sessão, a discussão se ampliará para a relação do palácio com a pólis, enquanto centro de decisões de poder e palco e símbolo do jogo de forças do corpo político que o investe. Uma terceira sessão será consagrada aos interiores palacianos, suas obras de arte e seu mobiliário.

 A quarta sessão será consagrada à discussão da definição do palácio e das abordagens metodológicas que permitam abarcar o palácio enquanto fenômeno arquitetônico, social e estético. Nesta sessão será apresentada a experiência do Centro de Pesquisa do Castelo de Versalhes, que estuda a sede da monarquia francesa nos séculos XVII e XVIII por meio de uma abordagem multidisciplinar, que vai dos estudos arquitetônicos à musicologia.

A última sessão será dedicada a uma discussão sobre o futuro dos palácios. As novas tecnologias e novas formas de comunicação, baseadas na imaterialidade da imagem e na velocidade e informalidade das redes virtuais, acarretam importantes mudanças nas forma de representação do poder estatal. As cerimônias deixam de ser organizadas em função dos assistentes, passando a atender aos imperativos da fotografia e da televisão, que aproximam a autoridade do espectador. Busca-se não mais impor o temor reverencial, mas a aproximação carismática do líder com a população. Essas transformações acarretam importantes mudanças não somente no funcionamento espacial dos palácios, mas na sua própria função dentro do aparato simbólico do Estado.

As discussões se desenvolverão a partir da exposição de aspectos diversos do projeto do Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, concebido por Oscar Niemeyer em 1958, quando da mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília. Em seu programa arquitetônico e na história de seu projeto manifestam-se vários elementos da problemática palaciana.

O programa do Palácio Itamaraty deve ser entendido a partir das três funções clássicas do diplomata: representar seu país, negociar e informar. No exercício dessas três funções, a diplomacia recorre alternadamente ao estrito protocolo de situações formais e à criação de situações informais de interação, que permitem a troca de informações e ideias e o avanço de processos negociadores de forma menos estruturada, mas não menos produtiva. O projeto também é indissociável do momento histórico por que passava o Brasil na década de 60, quando o país experimentava um período de acelerada industrialização, projeção internacional de suas artes e de sua cultura e de diversificação e intensificação de sua agenda diplomática.

O corpo diplomático brasileiro é uma burocracia permanente com uma forte cultura institucional, e discutiu detalhadamente o programa do Palácio com Oscar Niemeyer e os mais de 20 artistas e designers envolvidos no projeto. Assim o Palácio Itamaraty em Brasília foi concebido como um espaço cerimonial visando à representação de um ideal de nação em acelerado processo de modernização e de ascensão no cenário internacional, servindo ao permanente objetivo da política externa brasileira de projetar internacionalmente seu país, além de atender às necessidades operacionais do Protocolo de Estado e proporcionar à diplomacia brasileira ambientes de interação em diversos níveis de formalidade. A diplomacia brasileira moldou, e hoje se molda, às configurações espaciais de sua sede, numa relação simbiótica na qual uso e estrutura se reforçam e legitimam mutuamente.

 

_________________

1 “Nem todas as unidades sociais ou formas de integração dos homens são, ao mesmo tempo, unidades de habitação ou moradia. Mas todas elas podem ser caracterizadas Segundo determinados tipos de configuração espacial. (....) Pois a todo modo de agrupamentos humanos corresponde uma determinada configuração do espaço onde aqueles indivíduos de fato estão ou podem estar reunidos, todos juntos ou divididos em unidades menores. Assim, a expressão de uma unidade social no espaço, o tipo de sua configuração espacial é uma representação tangível e – literalmente – visível de suas particularidades. Elias, Norbert. A Sociedade de Corte. Rio de Janeiro, Zahar, 21001. p 67.

2  Baillie, H. M.: Etiquette and the Planning of the State Apartments in Baroque Palaces, in: Archaeologia 101 (1976)
Chatenet, M. La Cour de France au XV f siècle. Vie sociale et architecture, Paris, Picard, 2002. Chatenet, M., Ottenheym, K. A., De Jonge, K. (eds.). Public Buildings in Early Modern Europe. Turnhout, Brepols Publishers, 2010.
Sabatier, G. Le Palais d’Etat en Europe, de la Renaissance au Grand Siècle, in Auzépy, M.-F., Cornette, J. Palais et Pouvoir – de Constantinople à Versailles. Vincennes, PUV, 2003. Sabatier, G. Lieux de pouvoir et résidences royales en France, Xvème - XVIIème siècles. In: Sabatier, G.; Gomes, R. Lieux de pouvoir : Europe XVe - XXe siècles. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998.

 

 

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