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Senhor Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, Senador Aloysio Nunes Ferreira;
Senhor Vice-Presidente da Comissão,
Senador Luiz Henrique da Silveira;
Senhores Senadores presentes,
Senhoras Senadoras;
e Deputada Jô Moraes, Presidenta da Comissão de Relações Exteriores da Câmara:

Queria, em primeiro lugar, dizer da minha satisfação de estar aqui hoje. É a quarta vez que participo de uma reunião desta Comissão. Em três outras ocasiões no passado – em 2002, 2004 e 2009 – estive aqui para a sabatina pela Comissão para desempenhar as funções de Embaixador em Berna, em Buenos Aires e em Washington. Em todas essas ocasiões tive, com esta Comissão, a melhor experiência possível e uma excelente troca de ideias. Esse diálogo, intenso, com os senhores parlamentares se transforma em uma ocasião de debate muito rica para o Embaixador que vai assumir uma missão no exterior, para inclusive debater seu programa de trabalho e as instruções que tem sobre como desenvolver suas atividades e as relações do Brasil com o país para onde vai.

Mas esta é a primeira vez em que tenho a honra de aqui vir na condição de Ministro das Relações Exteriores, e queria, antes de tudo, agradecer a Vossa Excelência, Senador Aloysio Nunes Ferreira [PSDB/SP], e também a Vossa Excelência, Senador Luiz Henrique [PMDB/SC], o encontro que tivemos exatamente no dia da eleição de Vossas Excelências para a direção desta Comissão – ocasião em que nos reunimos no Itamaraty e em que me ofereci para estar presente aqui no menor prazo possível, para mantermos este diálogo e esta interação, para prestar esclarecimentos, apresentar um pouco as linhas gerais da política externa brasileira no segundo mandato da Presidenta Dilma Rousseff, da forma que ela me incumbiu de executá-la, e também para ouvir comentários, observações, sugestões da Comissão, porque creio que, dessa interação e dessa troca de opiniões, pode nascer um número grande de iniciativas que são importantes para a execução da nossa política externa.

A política externa brasileira tem objetivos de Estado permanentes. Nesse sentido, a execução da política externa – seja agora, seja nos períodos anteriores – tem como objetivo a inserção internacional do Brasil e a defesa dos interesses do Brasil no mundo.

O Brasil é um ator global - um país de dimensões continentais, com a sétima maior economia do mundo e a quinta maior população. É um país que sempre esteve presente em todos os grandes acontecimentos da vida internacional, desde a sua independência. Participou de todos os grandes acontecimentos que marcaram o século XX, e isso continua a ser verdade atualmente. O Brasil tem uma presença universalista e interesses universais, além de interesses e engajamentos regionais.

O primeiro círculo de inserção internacional do Brasil é a América do Sul – a consolidação da América do Sul como um espaço de integração e estabilidade em todos os âmbitos e a ampliação dos esforços no mesmo sentido com os demais países da América Latina e do Caribe.

Na nossa diplomacia econômica, intensificaremos nossa ação no sentido de abrir, ampliar ou consolidar o acesso mais desimpedido possível do Brasil a todos os mercados, promover e defender o setor produtivo brasileiro, coadjuvar suas iniciativas e ajudar onde for possível a captar investimentos. Desejamos a conclusão de negociações comerciais externas que garantam o acesso a mercados ampliados na região e no mundo.

Os laços com o mundo desenvolvido – com os Estados Unidos, com a União Europeia e com o Japão, entre outros – continuarão a ser essenciais para o nosso desenvolvimento econômico e tecnológico. Esses países são fontes indispensáveis de capitais, tecnologias, inovação e mercado. Daremos ênfase, sem dúvida, à relação com os Estados Unidos, importante parceiro econômico e comercial, procurando colocar os mecanismos de diálogo e cooperação com que contamos, na nossa relação bilateral, a serviço de uma relação mutuamente benéfica, respeitosa nas diferenças, mas engajada na obtenção dos resultados concretos nas áreas de comércio, investimentos, cooperação científico-tecnológica e educação, entre outras.

Procuraremos, também, consolidar nossa parceria estratégica com a China. Teremos em maio a visita ao Brasil do Primeiro-Ministro da China, Li Keqiang, o que constitui marco importante no aprofundamento dessa relação bilateral, que tem ramificações na América do Sul e no mundo.

É crucial aprofundar as relações também com os demais países da Ásia, que continua a ser a região de maior dinamismo econômico do nosso planeta.

Reforçaremos as relações com o BRICS e com os países emergentes. Estamos em fase de implementação do Banco de Desenvolvimento do BRICS e do Arranjo Contingente de Reservas, cuja criação ocorreu na cúpula do BRICS em Fortaleza, no ano passado, e já estão aqui, no Congresso Nacional, os respectivos acordos constitutivos, para apreciação pelos senhores parlamentares.

Fica claro que a dimensão Sul-Sul, que se consolida em nossa diplomacia e que não é, de modo algum, excludente, partiu de um claro diagnóstico de que o Sul é parte ativa na geopolítica e na geoeconomia mundial.

Queremos aprofundar a cooperação com os países em desenvolvimento levada a cabo pela Agência Brasileira de Cooperação, a ABC. Essa cooperação em diversas áreas, como agricultura, biotecnologia e saúde, não apenas fortalece nossos laços com tais países, mas também ajuda a projetar interesses brasileiros no mundo, de forma mais ampla.

Manteremos e aprofundaremos as relações com os países da África e do Oriente Médio, duas regiões ligadas ao Brasil por laços históricos e interesses concretos.

Nesta mesma semana, na sexta-feira, partirei em uma missão para a África, com uma agenda política e também econômica e comercial. Estarei, inclusive, acompanhado do Ministro da Indústria e Comércio, Senador Armando Monteiro [PTB/PE], e de missões comerciais, em Angola, Gana, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

O Brasil continuará atuando com grande engajamento no G-20 e nas negociações das Nações Unidas sobre mudança do clima, sobre a governança da internet e sobre o desarmamento, entre tantas outras frentes.

Seguiremos empenhados em fortalecer e promover a atualização das instâncias de governança global, como a ONU, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, em benefício de um sistema internacional mais representativo, legítimo e eficaz.

Desejamos a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com a inclusão do Brasil como membro permanente; a conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial de Comércio, de modo equilibrado e com ganhos efetivos para a nossa agricultura e para o fortalecimento do sistema multilateral de comércio; a reforma do sistema de cotas do Fundo Monetário Internacional, para permitir voz condizente com o peso dos países emergentes no regime financeiro global.

O Itamaraty estará também empenhado em zelar pelo bem-estar dos cidadãos brasileiros que estão no exterior, em caráter permanente ou temporário. Tenho buscado para a política consular brasileira os recursos humanos e materiais necessários para responder adequadamente à crescente demanda por serviços e assistência decorrentes da maior presença de brasileiros no mundo. Estou determinado a transformar em ação concreta a prioridade que o discurso diplomático brasileiro há tempos confere a essa dimensão relativamente nova da nossa presença no mundo: os grandes contingentes de brasileiros que vivem permanentemente no exterior ou que ali estudam, trabalham ou viajam por períodos mais breves, mas que não por isso são menos merecedores da atenção e da proteção do Governo brasileiro.

Insisto que, para o Brasil, não há dicotomias nem contradições de interesses nas nossas relações com os países desenvolvidos, emergentes ou em desenvolvimento, como não há contradições nem dicotomias em perseguirmos uma ampla agenda econômica, social, humanitária e de direitos humanos nos planos multilateral e regional. Nossos interesses são geográfica e tematicamente universais e, portanto, não apresentam contradições em si, nem admitem exclusivismos.

O Brasil é hoje chamado a atuar como um dos principais atores do sistema internacional. Nosso peso econômico, político e diplomático torna inevitável essa maior presença no exterior.

Na última década, o mundo vem sofrendo uma paulatina transição para além da clara hegemonia de uma única superpotência. O sistema internacional se caracteriza por uma crescente multipolaridade, que precisa ver-se cada vez mais refletida em um crescente multilateralismo. É nesse novo cenário que o Brasil não se pode furtar a atuar à altura da sua importância geoestratégica, econômica e política.

Essas são as principais linhas gerais da política externa que recebi da Presidenta Dilma Rousseff quando me convidou para assumir esta função no início do seu segundo mandato. São essas as linhas da política externa que foram seguidas pelo Itamaraty desde que entrei na carreira, com adaptações às circunstâncias atuais, mas que sempre se definem pela defesa intransigente dos interesses brasileiros no exterior e pela promoção de uma presença brasileira em todos os fóruns de discussão, todos os fóruns multilaterais em que o Brasil possa e deva se fazer presente, com a dimensão do seu tamanho, com a dimensão e o peso do seu interesse em todos os temas multilaterais.

Eu poderia discorrer agora sobre interesses específicos. Vossa Excelência, Senhor Presidente, mencionou o Mercosul e as relações com Argentina, Venezuela e demais países da região.

O Mercosul é um importantíssimo arranjo de integração que, desde a sua criação, produziu resultados enormes.

O comércio dos países do Mercosul teve uma multiplicação gigantesca desde a criação do bloco. O comércio dos países que formam o Mercosul era de menos de U$ 5 bilhões no momento da criação do bloco, em 1991. Hoje, esse comércio é de U$ 60 bilhões. É evidente que é uma união aduaneira em construção, que não está completa, não é perfeita, mas temos que levar em conta que essa união aduaneira reúne países com grandes assimetrias, e que é necessária, portanto, uma adaptação das velocidades dos arranjos de integração e dos compromissos de cada um desses países.

Notam-se dois momentos muito claros de conformação do Mercosul – o segundo momento tendo sido a criação do FOCEM, o Fundo para a Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional do Mercosul, que é um importantíssimo instrumento para diminuir as assimetrias e para ajudar a igualar os países membros, criar condições para que haja uma certa equiparação entre os países, de forma que a integração possa seguir em passos mais rápidos e avançar até o objetivo final. A linha de transmissão de Itaipu a Assunção, no Paraguai, é um caso emblemático de financiamento pelo FOCEM, que vai permitir que Assunção tenha um fornecimento seguro, constante, de energia - o que não era o caso, mesmo sendo o Paraguai o maior exportador líquido de energia elétrica do mundo. E são inúmeros os outros exemplos dessa natureza.

Ainda com relação ao Mercosul, eu gostaria de dizer que, em 2019, nós vamos atingir a total liberação do comércio regional na América do Sul. Até 2019, os acordos comerciais, os ACEs - Acordos de Complementação Econômica - celebrados entre o Mercosul e o Chile, o Peru e a Colômbia estarão em pleno vigor. Isso quer dizer que, a partir de 2019, o comércio exterior na América do Sul será totalmente livre. Existem ainda algumas exceções à tarifa externa comum, mas que são necessárias e se fazem necessárias justamente pelas assimetrias e para a proteção de alguns setores.

Essa integração da América do Sul em 2019 é um fato muito importante e muito pouco conhecido. É muito pouco divulgado que nós estaremos nesse ponto, com a aceleração, como foi produzida – inclusive, por interesses brasileiros - do sistema de desgravação até 2019.

Outro tema também muito interessante que Vossa Excelência mencionou, Senhor Presidente, é a Aliança do Pacífico, conformada por Chile, Peru, Colômbia e México. Esses quatro países, ao criarem a Aliança do Pacífico, estavam consolidando um sistema de comércio já previamente existente na Aladi, a Associação Latino-Americana de Integração, criada pelo Tratado de Montevidéu de 1980, em que já havia esquemas de liberalização do comércio.

Agora, o interessante e o curioso, e que não é tão conhecido, é que o comércio intra-Mercosul – o comércio entre os países do Mercosul – corresponde a 23,4% do comércio exterior dos países do Mercosul, enquanto o comércio intra-Aliança do Pacífico – o comércio, entre si, dos quatro países que formam a Aliança do Pacífico – representa apenas 6% do comércio exterior desses países. Aí se vê que o Mercosul tem uma solidez e um crescimento sem dúvida importantes.

Com relação às outras negociações comerciais mencionadas por Vossa Excelência - com a União Europeia, também a Parceria Transpacífica que os Estados Unidos vêm desenvolvendo, e a Parceria Transatlântica com a Europa. São todos acordos muitos importantes, sem dúvida nenhuma. Mas é importante lembrar que o Brasil, também, e o Mercosul – o Brasil ativamente, no Mercosul – vêm trabalhando, há muitos anos aliás, numa negociação com a União Europeia. Não é uma negociação fácil, de forma alguma. Há muitos interesses. Há muitas formas de protecionismo. Mas eu acho que logramos, no ano passado, um passo importante ao concluir, o Mercosul, a sua oferta para a União Europeia. Do lado do Mercosul, essa oferta está concluída. Esperamos que agora, ao longo deste ano, possamos trocar as ofertas com a União Europeia, que ainda está elaborando a sua própria oferta. Temos informação de que a Comissão de Agricultura deles ainda precisa rever partes da oferta europeia. Além dessa consulta à Comissão de Agricultura, depende-se também da consulta com os Estados partes. Portanto, nós estamos prontos, esperando que a União Europeia possa também concluir sua oferta. Isso mostra, sem dúvida nenhuma, a disposição do Mercosul de abertura para o mundo – e a defesa do multilateralismo, que se aplica não só às relações políticas, mas também às relações econômicas.

Acho que é fundamental que o Brasil defenda a conclusão da Rodada Doha, porque, através da Organização Mundial do Comércio, poderemos estabelecer regras claras, sólidas, de comércio internacional. E eu acho que é a garantia, para os países emergentes, para os países em desenvolvimento, que o seu comércio com o mundo será feito com base em regras conhecidas, regras claras, e não em regras que são negociadas em acordos plurilaterais com alguns países e que, depois, possam vir a ser impostas ou adotadas por outros mecanismos.

Eu creio que é muito importante a defesa do multilateralismo. Acho que temos, agora, uma grande ocasião de avançar a Rodada Doha, com o acordo que foi acertado em Bali, de facilitação de comércio. E a impressão com que fiquei, da recente visita ao Brasil do Diretor, brasileiro, da OMC, é de que há possibilidade de que se avance para nos aproximarmos do fim da Rodada no final deste ano.

Da mesma forma, a questão do multilateralismo nos organismos financeiros internacionais é fundamental. O Brasil defende o sistema de reforma de cotas do Fundo Monetário Internacional, para dar mais peso aos países emergentes, e também a reforma dos assentos da diretoria executiva do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

Creio também que a questão da atualização do Conselho de Segurança da ONU é fundamental neste ano em que se completam 70 anos da criação da ONU. O Conselho de Segurança, não resta dúvida, necessita ser reformado, precisa ser atualizado e precisa ganhar agilidade e, para isso, precisa ter a representação dos grandes países emergentes, que representam grande parte da humanidade e grande parte da economia mundial. A reforma também já leva muitos anos - é um processo longo -, mas acreditamos que, neste ano dos 70 anos da fundação da ONU, nós tenhamos condições de avançar de forma importante e decisiva nesse sentido.

Com relação ao Conselho de Segurança da ONU: sem dúvida, o Brasil é membro assíduo. Já foi dez vezes eleito membro não permanente – já teve, em dez ocasiões, durante dez biênios, vinte anos ao todo, um assento no Conselho de Segurança. Nenhum país no mundo foi eleito mais vezes, por seus pares, para o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O Brasil, respondendo ao que perguntou a Senadora Marta Suplicy [PT/SP], tem todas as credenciais para continuar pleiteando esse assento. O País é um membro fundador da ONU e um dos membros que maior contribuição deu às discussões do Conselho de Segurança – é, junto com o Japão, o país que mais vezes foi eleito para o Conselho de Segurança da ONU. O Brasil também tem participado de inúmeras missões de manutenção de paz da ONU, na África, no Oriente Médio, no Líbano, e também no Haiti, com a MINUSTAH, a qual o Brasil lidera já há dez anos.

Não tenho dúvida de que o Brasil, por ser uma sociedade multicultural, multiétnica, uma sociedade aberta, um grande país do Ocidente, tem todos os títulos necessários e tem dado uma contribuição muito grande à discussão de todos os temas internacionais, como um país pacifista, para a solução de disputas e de controvérsias.

Não tenho dúvida de que os títulos do Brasil são válidos; outros países terão títulos semelhantes, mas acredito que nenhum outro país tenha títulos maiores do que os brasileiros para ser candidato a um novo assento permanente no Conselho de Segurança. Creio que toda a movimentação em torno da reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas ganha, como já disse, vigor novo neste ano em que se completam 70 anos de criação da ONU. O Brasil se articula em diferentes grupos – é muito ativo, por exemplo, no G-4, que une o Japão, a Alemanha, a Índia e o Brasil, e, nesse âmbito, temos trabalhado intensamente. O nosso Representante Permanente junto às Nações Unidas, antecessor meu na função de Ministro do Exterior, tem trabalhado ativamente na articulação de medidas e de novas iniciativas que levem a um avanço, neste ano, da discussão da ampliação do Conselho de Segurança.

É evidente que não é um assunto fácil ou de fácil consenso, mas temos articulado nossa posição com todos os grupos importantes – incluindo, também, países africanos. Contamos com apoio expressivo de muitos países. A reforma do Conselho de Segurança enfrenta dificuldades específicas e regionais. Todos os grandes países, como a China, por exemplo, apoiam o Brasil. Também nos apoiam o Reino Unido, a França, quase toda a União Europeia – mas, às vezes, há dificuldades não com relação ao Brasil, mas com relação a algum dos outros países que pleiteiam um assento, dificuldades desses países com países vizinhos, e isso tem levado a uma situação de – eu não diria paralisia, mas de avanço muito lento nas discussões. Enquanto vai se passando o tempo nessas discussões, creio também que vamos amadurecendo os argumentos e a ideia de um Conselho de Segurança atualizado, expressivo e realmente representativo do mundo atual.

Quanto ao Livro Branco da Diplomacia: foi um exercício muito interessante e muito amplo, realizado num período em que eu estava ainda na Embaixada em Washington, mas, à distância, acompanhei as discussões, as mesas redondas, os seminários, que foram muitos e que recolheram uma contribuição muito grande da sociedade brasileira. A esse material todo se somam também os frutos da interação que o Ministério tem com os demais órgãos da sociedade civil, com os centros de estudos, com as universidades, com os institutos de relações internacionais, entre outros, e com as Comissões de Relações Exteriores desta Casa e da Câmara dos Deputados. Todo esse repositório de informações, de sugestões, de críticas - todos os projetos apresentados estão sendo devidamente compilados e examinados.

Nestes dois meses e meio em que estou à frente da Chancelaria, pedi que me trouxessem esse material para que se possa, então, proceder à sua atualização – porque todos esses temas têm uma evolução muito rápida – e à divulgação, no tempo devido, desse material. Acho que a contribuição será muito grande. A contribuição de todas as áreas do Governo, tanto dos demais órgãos e esferas do Executivo, como também da sociedade civil e do Legislativo, é muito bem-vinda. Todas essas contribuições estão ainda sendo recolhidas e serão, em seu momento, assim que terminarmos esse trabalho, divulgadas.

Com relação, Senador Ricardo Ferraço [PMDB/ES], à notícia que o senhor mencionou, de recrutamento de jovens para o grupo autointitulado "Estado Islâmico" em território brasileiro, eu, assim como o senhor, vi e tomei conhecimento dessa notícia, mas não temos, até o momento, nenhuma confirmação de que exista de fato caso de recrutamento dentro do território brasileiro. O único caso, que é de conhecimento público, é o caso de um jovem que tem dupla nacionalidade, belga e brasileira, filho de mãe brasileira e pai belga, que estaria na Síria. É a única informação que temos. Não tivemos nenhuma informação, nenhuma evidência. Tudo que vimos além disso, até agora, são especulações e notícias sem confirmação.

Com relação à Venezuela, Senador Ferraço, eu queria dizer ao senhor que eu participo da comissão de chanceleres da Unasul – são três chanceleres: Brasil, Colômbia e Equador –, que foi criada e recebeu um mandato dos Presidentes da Unasul para promover um diálogo entre o Governo e a oposição na Venezuela.

Essa comissão foi criada no ano passado, quando teve um trabalho intenso e produtivo. Foi possível, através do diálogo promovido, diminuir as tensões e diminuir aquele momento de grande dificuldade, a que o senhor se referiu, em que estava a sociedade venezuelana, quando houve enfrentamentos nas ruas e mortes. Até abril ou maio do ano passado foi quando a missão trabalhou muito ativamente, e, a partir de então, esses enfrentamentos e os distúrbios nas ruas foram praticamente eliminados, diminuíram graças a esse diálogo.

Neste mês, já em março de 2015, fizemos uma viagem do pleno da comissão – Colômbia, Brasil e Equador – a Caracas, onde tivemos uma programação muito intensa. Tivemos reuniões com o Presidente Maduro. Tivemos reuniões com a Presidente do Conselho Nacional eleitoral, que é o órgão encarregado constitucionalmente da organização das eleições, o órgão reitor do sistema eleitoral. Depois, tivemos encontro com a Presidente e os dois Vice-Presidentes da Suprema Corte da Venezuela. Em seguida, tivemos uma reunião com a Procuradora-Geral da República. E, posteriormente, tivemos uma reunião, na Nunciatura Apostólica, com a oposição, com representantes de sete partidos da oposição. Entre eles, estava o Governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, que perdeu as eleições presidenciais por menos de 2% dos votos. Os membros representantes dos partidos que estavam ali e que compõem a chamada MUD – Mesa de Unidade Democrática – eram representativos; além de um candidato que tinha tido 49% dos votos nas eleições presidenciais, os representantes dos outros partidos que compõem essa "Mesa", como o Governador do Estado de Táchira, eram outros Deputados e personalidades destacadas da oposição.

O que eu posso dizer a Vossa Excelência, Senador Ferraço, é que dessa reunião eu saí com uma impressão positiva, tanto da oposição quanto do governo, porque nós ouvimos do governo – não só do Executivo, como também da Comissão Eleitoral – a garantia de que eleições se realizarão este ano. A Presidente da Comissão Nacional Eleitoral nos informou que já foram convocadas as eleições prévias, que, pela legislação venezuelana, são opcionais: os partidos pedem ou não sua realização. As prévias são para identificar e para se escolherem os candidatos. E tanto os partidos de oposição como o partido do Governo pediram a realização das prévias. O fato de a oposição ter solicitado a organização de prévias pela Comissão Nacional Eleitoral foi interpretado por todos como um gesto positivo, um gesto de confiança no sistema.

Ouvimos da Presidente do Conselho a garantia de que já estavam convocadas para fim de maio as prévias dos partidos de oposição, e para meados de junho as do partido do governo. Não existe, pela legislação venezuelana, uma data fixa para eleição. A eleição é convocada pelo Conselho Eleitoral a partir de passos que são dados, como a atualização do cadastro eleitoral, revisão de identidades, e na medida em que são completadas essas etapas do processo, então se convoca a eleição e se marca a data.

Ela nos deu a garantia de que isso ocorreria dentro de três a quatro semanas – isso foi há uma semana e pouco, ainda estamos dentro desse prazo. E deu outra informação, que julgo a mais relevante de todas: ela pediu que a Unasul estabeleça uma missão de observação e acompanhamento do processo eleitoral, não só para as prévias, mas para as próprias eleições, que, dentro das expectativas, das projeções dela, serão realizadas no último trimestre deste ano. Ela imagina que seja em torno de novembro. Assim que se completarem esses outros trâmites, seria fixada a data. E ela solicitou uma missão de longo prazo – a Presidente do Conselho Eleitoral disse que não gostaria de uma missão de observação que chegasse apenas quatro dias antes e que não visse quase nada. Ela pediu uma missão técnica para as prévias, que fizesse um acompanhamento de todo o processo, de toda a verificação, de todo o processo eleitoral, e que, depois, também para as eleições do final do ano houvesse nova missão técnica e política para o acompanhamento completo, com início com bastante antecedência à realização das eleições. E eu julguei isso um sinal muito importante; acho que é um gesto importante para a sociedade, para a oposição. Na reunião que eu tive com a oposição, houve a manifestação unânime de que o problema na Venezuela só será resolvido pela via eleitoral, e todos confirmaram as informações que me tinham sido dadas pela presidente do CNE. Então eu só posso achar que as condições estão dadas e que devemos acreditar que as eleições se realizarão dentro dos prazos previstos, dentro dos requisitos da lei.

E devo dizer que tudo isso também nos foi confirmado pessoalmente pelo próprio Presidente Maduro, com quem nos reunimos e que nos confirmou ter conhecimento do andamento do processo eleitoral e confirmou inclusive o convite à Unasul para se fazer representar nessa missão de observação.

Acho que essas são informações importantes. Não sei se foram de conhecimento geral. Essa missão é, como eu disse, de diálogo. A missão da Unasul não foi lá para julgar nada, para dizer o que está certo ou errado, mas para promover um diálogo, um entendimento entre os dois lados – e acho que tem conseguido alcançar esse objetivo.

Acho que foi muito positivo, porque eu percebi um clima de diálogo – a comissão de chanceleres teve diálogos separadamente com o Governo venezuelano e com a oposição, mas as posições expressas foram coincidentes, ambas no sentido de que o processo eleitoral é fundamental para a solução dos problemas do país e de que as eleições vão se realizar.

E esse é um processo aberto. Na reunião que houve há dez dias, em Quito, na sede da Unasul, o mandato dado a essa comissão de chanceleres foi renovado, e também foi renovada a disposição nossa, dos três chanceleres, de viajarmos à Venezuela e continuarmos o diálogo sempre que for solicitado. Sempre que for solicitado, seja pela oposição, seja pelo governo, essa comissão de que faço parte estará pronta para prestar esse apoio, promovendo o diálogo.

É importante dizer também que, na questão do diálogo com a oposição, tem um papel muito importante o Vaticano, através da Nunciatura Apostólica em Caracas, que recebe, como um território neutro, todos os membros da oposição.

Vossa Excelência também me perguntou, Senador, sobre o Mercosul. Então, passando para essa questão, que também diz respeito um pouco a outra das perguntas da Senadora Marta Suplicy: a Argentina é o principal parceiro do Brasil no Mercosul, não há dúvida. É um parceiro estratégico.

Nós temos um comércio muito importante com a Argentina, apesar de ter sido reduzido no ano passado por consequência das crises por que passa, inclusive, a Argentina. São mais de US$ 28 bilhões. E, majoritariamente, as nossas exportações para a Argentina são constituídas por produtos manufaturados. É um comércio muito importante, muito relevante para o Brasil.

Os acordos feitos pela Argentina com a China não são deste ano só. Neste ano, a Presidenta da Argentina fez uma visita à China e concluiu mais alguns acordos, mas são acordos que vêm, sobretudo, do ano passado – a maior parte – e, alguns, do ano retrasado. Estamos examinando esses acordos e estamos conversando com os argentinos.

Estive em visita a Buenos Aires – foi a primeira visita bilateral que fiz, na condição de chanceler, a qualquer país do mundo – e conversei com o chanceler argentino, que me deu uma série de explicações a respeito do conteúdo desses acordos.

Grande parte dos acordos – até onde vimos e até onde examinamos – são acordos declaratórios de intenção. Há acordos específicos de questão de pesquisa espacial, de criação de uma estação de observação, e não há nenhum acordo que até o momento tenhamos visto que interfira diretamente nas questões do Mercosul, de tarifa externa comum. O que há são possibilidades de comércio.

Foi criado um fundo, um "swap" cambial entre a Argentina e a China, mas que é em moeda local, em iuanes, e que não foi utilizado até o momento, pelas informações que pude colher na minha visita à Argentina e pelas informações que pudemos constatar da análise dos documentos.

Agora, o que eu queria também dizer a Vossa Excelência, sobre as relações com a China: todos os países da região passaram a ter a China como seu primeiro parceiro comercial. O Brasil tem um comércio gigantesco: são US$ 85 bilhões com a China. E, da mesma forma que temos um grande comércio, temos vários mecanismos bilaterais com a China, que são absolutamente legítimos, contanto que não contrariem e não violem nenhum artigo do Tratado de Assunção, que constituiu o Mercosul. De nossa parte, não há nenhum.

E creio – não posso confirmar, porque estamos, ainda, num processo de análise, mas assim creio, pelas informações que recebemos dos nossos parceiros argentinos – que não há também, entre esses acordos firmados entre China e Argentina, nenhum que toque em questões tarifárias, nenhuma questão que afete a estrutura no Mercosul.

Com relação aos Estados Unidos, respondendo ao Senador Fernando Bezerra Coelho [PSB/PE], sobre a questão do comércio bilateral, da inserção do Brasil no mercado americano: eu tive a honra de ser Embaixador do Brasil por cinco anos nos Estados Unidos, e esse período, para mim, foi de grande formação de conhecimento. Foi a segunda vez que servi nos Estados Unidos – servi lá também no início da minha carreira, e, dos 40 anos que tenho de carreira, passei dez nos Estados Unidos; foi, sem dúvida, o país em que estive por mais longo período no exterior –, e é impressionante constatar a profundidade da relação entre os dois países.

Em primeiro lugar, são relações que, em sete anos, vão comemorar dois séculos de existência. Não são muitos os países – aliás, nenhum na Europa – com que temos tanto tempo de relações bilaterais.

Em segundo lugar, na questão, agora tão discutida, das visitas bilaterais: poucos países tiveram tantas visitas bilaterais de Chefes de Estado brasileiros quanto os Estados Unidos, e poucos países no mundo já receberam tantas visitas oficiais de Presidentes dos Estados Unidos quanto o Brasil: nós já tivemos 17 Chefes de Estado brasileiros que visitaram oficialmente os Estados Unidos, e já recebemos 14 Chefes de Estado americanos no Brasil.

Isso é um dado que impressiona muito, nos Estados Unidos, não só a sociedade americana como também outros diplomatas, de outras embaixadas. Eu me lembro que à época da visita do Presidente Obama ao Brasil, num seminário num centro de estudos, eu mencionei esse fato, e um diplomata de um outro país que seria também visitado falou: "Ah! Que sorte que tem o Brasil, que já recebeu quatorze visitas de um Chefe de Estado americano. No meu país, vai ser a segunda".

Além disso, temos que ver também o volume de comércio entre os dois países, e o volume de investimentos. O Brasil e os Estados Unidos têm uma relação muito antiga de investimentos e de comércio. Os Estados Unidos são o principal investidor no Brasil. O estoque de investimento é da ordem de US$ 130 bilhões, US$ 135 bilhões, e o fluxo tem sido constante. Em 2013, foram US$ 9,5 bilhões. E um fato relevante é o aumento dos investimentos brasileiros nos Estados Unidos, que mostra a interligação e a interconexão entre as duas economias.

O Brasil tem hoje uma presença muito grande e muito forte na economia americana. Os investimentos brasileiros, segundo estudos feitos, ajudam a manter em torno de 110 mil empregos na economia americana, pelos investimentos, pelas aquisições, pelas fusões feitas a partir de capitais brasileiros. Um dado muito interessante: em torno do ano 2000, para cada dólar que o Brasil investia nos Estados Unidos, havia, no sentido contrário, dos Estados Unidos para o Brasil, US$ 47,5 que vinham em investimentos para o Brasil. Essa proporção se alterou completamente em 2013, quando, para cada dólar do Brasil que ia em investimentos para os Estados Unidos, havia, no sentido inverso, US$ 2,9 – uma mudança total da proporção dos investimentos. Mas isso não significa que os investimentos americanos no Brasil tenham caído – ao contrário: continuaram muito altos; houve um crescimento exponencial dos investimentos brasileiros.

A presença de empresas brasileiras é enorme em todos os setores da atividade econômica americana. No Brasil, temos inúmeras empresas americanas que estão no País há mais de um século. Há um interesse mútuo muito grande.

Todos os empresários americanos que encontrei manifestavam o interesse por relações maiores e mais profundas. Temos inúmeros mecanismos bilaterais de concertação política, em torno de 30 mecanismos, para todas as áreas. Há quatro ou cinco desses mecanismos que se reportam diretamente aos Chefes de Estado. Um deles, muito interessante, é o foro de altos executivos, integrado por doze grandes executivos americanos, doze grandes executivos brasileiros e dois altos funcionários de cada governo, que discutem os temas de maior interesse do setor privado de ambos os países e recebem, do setor privado, sugestões, que o Governo examina e, na medida da possibilidade, implementa. Foram várias as medidas tomadas em diversas áreas como resultado de reuniões desse mecanismo.

Com relação às perguntas do Senador Fernando Bezerra: Vossa Excelência me perguntou da visita de Estado da Presidenta da República. A Presidenta tem todo interesse em ir, sempre diz que a relação com os Estados Unidos é prioritária e que ela realizará uma visita aos Estados Unidos no momento que julgar oportuno. Estive recentemente, semana passada, em Washington, e aproveitei a ocasião da posse do novo Secretário-Geral da OEA para ter encontros também com autoridades do Governo americano. Foi manifestada a renovação do convite à Presidenta Dilma, e concordamos que a visita deve se realizar no momento em que tivermos atingido uma agenda importante e densa. Uma visita entre Chefes de Estado não deve ser desperdiçada apenas com atos protocolares. Devemos, sim, promover uma série de entendimentos, de acordos, e há muita coisa em negociação, em encaminhamento, entre as duas chancelarias e entre outras áreas do governo, na área de indústria e comércio, de energia, na área de desenvolvimento científico e tecnológico e inovação e também na área de cooperação educacional. Acho que o importante é construirmos uma agenda densa e importante, o que está sendo feito pelos contatos entre as duas chancelarias, e a visita se realizará no momento oportuno em que todas essas negociações estiverem avançadas e maduras.

Eu queria agradecer as palavras tão generosas do Senador Luiz Henrique da Silveira [PMDB/SC] sobre mim, sobre o período em que convivemos – período em que Vossa Excelência teve um papel protagônico importantíssimo, como o segundo Ministro da Ciência e Tecnologia do País, sucedendo ao saudoso Ministro Renato Archer. Vossa Excelência, Senador, como quando Deputado, e como posterior e anteriormente como Prefeito e como Governador de seu Estado, sempre teve um papel de grande participação nos grandes interesses da vida pública brasileira.

O Senador Tasso Jereissati [PSDB/CE] perguntou se haveria mudanças na política externa brasileira. A política externa brasileira é orientada por princípios de Estado; a política externa brasileira é orientada pela defesa do interesse brasileiro em todas as áreas e é pautada pelos princípios constitucionais: de não interferência nos assuntos internos de outros países; de defesa do multilateralismo; de resolução pacífica dos diferendos entre países; do respeito aos direitos humanos; da defesa do multilateralismo. A nossa política externa sempre se pautou por esses princípios e tenho certeza de que continuará se pautando por eles, sempre na defesa do interesse brasileiro, sempre perseguindo os melhores resultados, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista econômico.

Nós temos relações as mais variadas com todos os países, de todas as orientações. Nós temos um diálogo de Estado e dialogamos com os demais países na defesa dos interesses brasileiros. Por sermos um ator global e por estarmos presentes em tantos países, temos condições de levar a presença do Brasil, a palavra do Brasil e a forma de o Brasil ver o mundo a diferentes recantos do planeta.

Com relação especificamente à pergunta sobre o número de embaixadas, acho que é muito importante o aumento do número de embaixadas brasileiras no exterior. Isso foi fundamental e é fundamental para a presença do Brasil.

Nós temos de fato muitas embaixadas cumulativas, como o senhor mencionou – Embaixadores residentes num país, que representam o Brasil também em outro país. Na Ásia Central e na Oceania é muito comum. Na África ainda há – embora, na África, tenhamos aberto várias embaixadas residentes: hoje temos 37 embaixadas na África, grande parte das quais abertas no período de 2003 a 2010. Nesse período, durante o Governo do Presidente Lula, deixamos de ter em vários países africanos Embaixadores cumulativos e passamos a ter essa presença, que foi muito importante em inúmeras ocasiões, não só para defender um assento permanente no Conselho de Segurança, mas também para promover as exportações brasileiras. Estatísticas comprovam que houve, em países onde abrimos embaixadas nos últimos dez anos, um aumento do fluxo de comércio bilateral, no período, da ordem de 190%.

Há, sem dúvida, um resultado positivo e muito positivo na questão de comércio bilateral. Comprometo-me a mandar por escrito para o senhor, Senador Tasso Jereissati, esses dados do aumento do comércio com esses países onde abrimos embaixadas. E posso lhe adiantar que, de forma geral, a estatística prova que houve um aumento de 190% em média no nosso fluxo comercial com essas embaixadas abertas no Leste europeu, nos ex-países da União Soviética, e também muitas na África e na Ásia.

Outra questão que é absolutamente indispensável: não se faz política externa sem presença. A embaixada cumulativa é importante. É melhor ter que não ter. O Brasil tem relações diplomáticas com todos os países que são membros da ONU – infelizmente, não temos embaixadas em todos os países, o ideal seria ter, mas não temos e não podemos ter. Mas é muito importante a presença, porque, no momento em que necessitamos de apoio de países para posições nossas em organismos internacionais ou para apresentar e defender posições nossas com relação a temas importantes da área internacional, é preciso ter uma Embaixada.

Nós não teríamos logrado a eleição do Doutor José Graziano para a FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura da ONU; não teríamos logrado a eleição do Embaixador Roberto Azevêdo para a OMC, se não tivéssemos tanta presença. No Caribe, onde o temos hoje embaixadas em todos os países independentes, essa presença foi fundamental. O Caribe foi peça fundamental para a eleição também do novo Secretário-Geral da OEA, em que teve êxito a candidatura por nós apoiada, do novo Secretário-Geral Luis Almagro.

Especificamente quanto à questão do custo de abertura e manutenção dessas embaixadas novas: o custo é muito relativo, e vale a pena assumir esse custo. É evidente que embaixadas grandes como a de Washington, embaixadas em tantos países grandes, custam mais caro. Agora, em muitos países, o custo de manutenção de uma embaixada é reduzido e é amplamente compensado pelo ganho político e pelo ganho econômico e comercial que se obtêm com essa presença.

Vossa Excelência não tenha dúvidas, Senador Tasso Jereissati, de que é muito importante essa presença. Dou o exemplo específico dos países do Caribe, pela abertura que hoje existe e pela receptividade que neles hoje há para as iniciativas brasileiras.

A presença da embaixada é seguida também sempre de programas que são desenvolvidos pela Agência Brasileira de Cooperação, que é um órgão do Itamaraty que promove projetos de cooperação técnica. E, com o conhecimento do terreno local, essa interlocução e a realização desses programas é muito mais eficiente e tem resultados muito mais positivos.

As embaixadas no Caribe têm um custo reduzido, assim como várias outras das embaixadas abertas recentemente. São embaixadas pequenas, de tamanho muito reduzido, como muitos países fazem. E, com relação ao orçamento do Itamaraty: ele suportou perfeitamente a abertura dessas embaixadas; isso foi absorvido pelo orçamento do Itamaraty.

É evidente que nós temos dificuldades no orçamento. Para a presença que o Brasil demanda no exterior, precisávamos ter um orçamento muito maior. Mas nós atuamos de acordo com a realidade, dentro dos recursos que temos.

O mais difícil na execução orçamentária do Itamaraty é a questão do câmbio. Grande parte, 89% do nosso orçamento, é despendida no exterior. Então é evidente que flutuações cambiais, como a que estamos vendo recentemente, têm um impacto.

Mas desde o momento em que fui convidado pela Presidenta Dilma Rousseff para assumir esta função, e em todas as vezes em que estive com ela desde então, a Presidenta Dilma me deu total apoio e garantias de que seriam dados os recursos necessários para a manutenção dessa rede de embaixadas no exterior.

Não seria possível um corte orçamentário que implicasse a redução dos recursos de forma tal que não se permitisse pagar as contas básicas, contratos de aluguel e tudo o mais. A Presidente evidentemente é sensível a isso e, conhecedora disso, sempre me deu todo o apoio. E eu estou trabalhando com os ministérios envolvidos - com o Ministério do Planejamento, com o Ministério da Fazenda - para a adequação desses recursos, para que o Brasil não deixe de cumprir os seus compromissos, que são absolutamente indispensáveis.

Mas o que eu queria dizer a Vossa Excelência, sobre a nossa rede de embaixadas, é que o ideal é que ela fosse maior ainda.

Em nenhum país em que o Brasil está presente, o Brasil está sozinho. Se olharmos a lista de países que têm representação em cada um desses Estados, podemos nos surpreender ao ver que até países que consideramos pequenos também estão lá representados com embaixadas residentes e veem na representação diplomática um grande instrumento de promoção de exportações, de promoção das exportações do país e, sobretudo, de apoio para decisões internacionais feitas no concerto das nações - seja na ONU, seja nos organismos especializados, onde é absolutamente indispensável se ter apoio.

Quanto à pergunta sobre o Professor Marco Aurélio Garcia, se há alguma relação hierárquica entre nós: não, não há nenhuma. Ele é assessor especial da Presidenta da República para assuntos internacionais. É uma função que existe há muitos anos, uma função que foi criada nos anos 1950 e que raramente foi ocupada por diplomatas. Augusto Frederico Schmidt já teve essa função. A função de Assessor Especial para Assuntos Internacionais na Presidência da República é muito importante, porque, entre outras coisas, é um canal de comunicação com a Presidência e com a Presidenta, com o Chefe do Executivo. Não se poderia imaginar que o Ministro do Exterior pudesse ir à Presidência da República todas as vezes que fosse necessário levar todo tipo de documento. Há um despacho indireto que é feito do Itamaraty, que manda uma série de documentos para a Assessoria Internacional, que os leva ao conhecimento do Presidente da República. É um canal de facilitação. Depois, o Professor Marco Aurélio, que é um distinguido acadêmico, professor universitário, sempre trabalhou em consulta constante com o Itamaraty. Já como chefe de gabinete do então Ministro Celso Amorim, assisti à forma como ele sempre ajudou na tramitação de papéis e de assuntos.

Ele tem uma rede de contatos no Brasil e no exterior que ajudam muito. Não há nenhuma forma de subordinação, e sim de colaboração. Ele é um funcionário que muito ajuda o Itamaraty no desempenho de suas funções. Vi isso como chefe de gabinete do Ministro e vejo agora como titular da pasta. É uma função muito importante, que nos ajuda, e com quem temos contatos constantes. Ele é a pessoa que organiza, que recebe os subsídios que o Itamaraty manda, que prepara os discursos da Presidenta na área internacional. Só posso ter palavras de apreço, de elogio e de agradecimento à ação e postura do Professor Marco Aurélio nessa função na Presidência da República.

Com relação à pergunta do Senador Delcídio do Amaral [PT/MS] sobre a importância do Paraguai e da Bolívia, queria dizer que concordo plenamente com o senhor, Senador, que esses são dois países muito importantes para o Brasil e que vêm tendo taxas de crescimento enormes, surpreendentes.

Acabo de fazer uma visita bilateral ao Paraguai. Estive com o Presidente Cartes, que tem interesse total em desenvolver relações mais próximas e intensas com o Brasil. Ele disse que o Mercosul é o maior produtor de grãos do mundo, o que é verdade – Paraguai, Brasil, Argentina, Uruguai e a região baixa da Bolívia formam um celeiro de grãos para o mundo. O Presidente Cartes expressou ainda a disposição de cooperar em várias áreas, inclusive na questão de drogas, em que manifestou total interesse num programa cada vez mais profundo e mais próximo de cooperação na área de combate ao narcotráfico, que realmente é um flagelo que afeta todos os países.

A Bolívia também é um país com enormes reservas naturais, um país importante, que vem apresentando uma taxa de crescimento econômico impressionante. Estive na Bolívia para a inauguração do terceiro mandato do Presidente Evo Morales. Não visitava a Bolívia há mais ou menos dez anos, e fiquei muito bem impressionado com o que vi, com o resultado das grandes conquistas econômicas obtidas, com a transformação da fisionomia do país e da cidade de La Paz – fiquei muito bem impressionado. E, sem dúvida, é um país importantíssimo também para o Brasil e com o qual compartilhamos a maior fronteira do Brasil – 3,5 mil quilômetros de fronteira terrestre. É, evidentemente, uma fronteira que requer muito cuidado, muita atenção, muita vigilância, justamente para combater todo o tipo de crime transnacional. E o Governo brasileiro tem toda a intenção de continuar trabalhando muito proximamente não só do Paraguai e da Bolívia, mas também de todos os outros países fronteiriços, para se implementarem os projetos e as políticas necessários para resguardar essa região.

Com relação à pergunta sobre a Lei Habilitante na Venezuela, queria dizer, Senador Lasier Martins [PDT/RS], que é um instituto antigo na legislação constitucional venezuelana, que foi utilizado pelo Presidente Betancourt, pelo Presidente Andrés Pérez, pelo Presidente Lusinchi e pelo Presidente Caldera. O Presidente Carlos Andrés Pérez governou quase o seu mandato inteiro com a Lei Habilitante. A Lei Habilitante estabelece quais são as áreas, quais são os setores, em que pode haver decreto-lei, pode haver legislação por decreto, e quais são as áreas.

De modo que não é uma novidade, não foi uma coisa nova – embora, para mim, tenha sido uma surpresa: tomei conhecimento disso recentemente, quando passei a integrar essa troica de chanceleres da Unasul; não tinha conhecimento da existência desse instituto que é a Lei Habilitante. E me surpreendi, porque me dei conta de que é antigo, vem dos anos 1960. Agora, na hora da concessão da lei, o Legislativo ampliou, inclusive, não só a duração, a validade da lei, como também o escopo.

Com relação, Senador Ronaldo Caiado [DEM/GO], à questão do "Mais Médicos", queria mencionar que o Itamaraty participou desse programa todo só, única e especificamente, na área dos vistos. Foram examinadas formas para que os vistos pudessem ser dados e para que acomodassem a participação de estrangeiros – não apenas cubanos. Mesmo os que procediam de países para os quais não pedimos vistos precisariam ter algum tipo de visto permanente que permitisse que eles exercessem a profissão aqui.

Então, o Itamaraty participou da discussão e foi criado um tipo novo de visto chamado Visto Temporário de Acompanhamento Médico, "Vicam", que é dado para todos os participantes do Programa Mais Médicos, e estendido também aos familiares, aos dependentes, cônjuges, companheiros, companheiras dos médicos que estão no programa, pelo princípio da união familiar. Esse é um princípio que rege a nossa legislação de vistos. Sempre concedemos os vistos para a união familiar. A participação do Itamaraty, na questão do programa, limitou-se a isso, à questão dos vistos.

O Itamaraty não concede passaporte para nenhum participante do Programa "Mais Médicos", nós apenas colocamos um visto para que eles possam trabalhar, nos passaportes seus, originários de seus países. Há espanhóis, portugueses, há cubanos, há chilenos, há profissionais de vários países. Nós colocamos esses mesmos vistos mesmo nos passaportes de médicos originários de países que não precisariam normalmente de vistos, mas que precisam, sim, para esse Programa, que é um visto de trabalho, é um visto de trabalho adaptado para médicos.

Quanto a essas pessoas que o senhor diz que vêm "patrulhar" – eu não tenho conhecimento total da questão e do Programa porque, como disse ao senhor, não participei – nem eu, nem, aliás, meus antecessores: o Embaixador Figueiredo e o Embaixador Patriota também não participaram da elaboração do Programa; nós, no Itamaraty, só participamos dessa questão única e exclusiva de nossa competência, que é a questão dos vistos.

Agora, o que existe previsto – e sobre o que me informei, por ter visto na imprensa – é que há no Brasil cinquenta consultores da Organização Pan-Americana de Saúde. São funcionários de um organismo internacional que vêm ao Brasil e que trabalham na base da OPAS, a Organização Pan-Americana da Saúde, que é uma organização antiga, que tem mais de 100 anos, mais antiga do que a Organização Mundial da Saúde, e essa organização têm consultores que acompanham a execução do Programa. Eles vêm e voltam, e são funcionários de diferentes nacionalidades. Haverá também alguns cubanos, mas são funcionários de uma organização internacional. Essa é a informação que tenho, não sei se há outra, mas, como não é da minha área de competência, não posso afirmar mais do que isso.

E, como foi dito aqui, os médicos cubanos estão em perto de uma centena de países. Estão em Honduras, na Venezuela, no Equador, na Bolívia – e, mais recentemente, têm uma presença muito forte na África ocidental, e têm um papel que foi muito destacado inclusive nos Estados Unidos – a Senadora Gleisi Hoffmann [PT/PR] se referiu a isso, na questão do combate ao ebola. Foi muito destacada e muito elogiada a participação dos médicos cubanos, porque eles foram, praticamente, os únicos que estiveram lá, em campo, se expondo e combatendo o ebola, com conhecimento técnico e preparação para combater essa grande epidemia, essa grande crise. Agora, eu não posso, realmente, acrescentar mais do que isso sobre esse tema, porque não é tema da minha área de responsabilidade.

Sobre o Irã, eu poderia dizer ao senhor, Senador José Agripino Maia [DEM/RN], que é um parceiro comercial muito importante para o Brasil, com quem temos um grande superávit. Chegamos a ter um comércio de US$ 2,5 bilhões, com superávit para o Brasil por praticamente todo o período. Esse comércio caiu em consequência das sanções aplicadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, o que dificultou o acesso do Irã a divisas para financiar o comércio bilateral, mas, mesmo assim, ainda é grande, é de cerca de US$ 1,3 bilhão nosso comércio com o Irã. O Irã está negociando com o chamado "P5+1" - os países membros permanentes do Conselho de Segurança,  mais a Alemanha - um acordo para a questão do programa nuclear, e acho que estamos muito próximos de uma solução. Será muito auspicioso que esse acordo seja atingido no mais rápido prazo possível.

O Brasil mesmo, no passado, tentou, junto com a Turquia, intermediar um acordo, e, lamentavelmente, o acordo, mesmo tendo sido aceito pelas partes, não foi totalmente implementado. Já teríamos ganhado cinco anos. Perdemos meia década, e o acordo, a chamada "Declaração de Teerã", foi, naquele momento, uma grande conquista, e tenho certeza de que o acordo atual não será tão abrangente quanto ele.

Eu agradeço muito, Senhor Presidente, o convite e a interação que tivemos, que foi excelente, e permaneço à disposição de Vossas Excelências.

Muito obrigado.

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