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Antes de falar sobre os interesses do Brasil e da Tanzânia, eu queria entregar ao presidente Kikwete um livro brasileiro, escrito em inglês, para ensinar como exportar para o Brasil, para... porque as pessoas pensam que o Brasil só quer vender. Então, nós queremos ensinar as pessoas a venderem para o Brasil. (incompreensível).

Bem, primeiro, dizer ao presidente Kikwete, aos seus ministros e aos empresários da Tanzânia da alegria de poder estar cumprindo esta agenda neste país extraordinário, agenda que poderia ter sido cumprida no ano passado, mas não foi possível. Mas, também, dizer ao Presidente que quando terminar esta minha viagem, passando por Zâmbia amanhã e pela África do Sul, eu terei visitado 27 países africanos em oito anos de mandato, o que é mais que todos os presidentes do Brasil [visitaram], em toda a história do Brasil. Lamento que não tenha podido visitar mais. Mas, de qualquer forma, eu continuarei visitando a África mesmo quando não for presidente da República.

Uma coisa que eu considero importante, e queria chamar a atenção dos queridos companheiros empresários brasileiros que vieram aqui e dos empresários da Tanzânia, é que a gente não deve, numa reunião como esta, ficar lamentando aquilo que nós não fizemos até agora. O que nós não fizemos até agora, não fizemos e não tem mais jeito de recuperar. O importante é que a gente discuta o que fazer a partir de agora. Por exemplo, eu ouvi o Presidente falar dos interesses da Vale do Rio Doce e vi a Vale do Rio Doce falar dos interesses dela aqui na Tanzânia, tanto para o minério de ferro, quanto para o carvão ou qualquer outro minério que tiver. Agora, é importante que se tenha em conta que a Vale do Rio Doce tem que vir aqui fazer investimentos, gerar emprego aqui e contratar trabalhadores da Tanzânia para trabalhar nos seus projetos, e não trazer trabalhadores do Brasil ou de outros lugares como alguns fazem, o que não é boa política, porque nós precisamos aproveitar a exploração da matéria-prima que nós temos para gerar riqueza, desenvolvimento e distribuição de renda no país que é dono do minério. Por isso, estarei torcendo para que a Vale do Rio Doce tenha sucesso na disputa que estará fazendo aqui na Tanzânia.

Segundo, queria chamar a atenção dos empresários brasileiros para o mapa. Não sei se todo mundo está vendo, ali... Mas o mapa, onde a Tanzânia está localizada, nos coloca perto de mercados extremamente interessantes, nos coloca perto de mercados não só dentro da própria África... quando vocês abrem a porta aqui, vocês vão ver um porto muito grande aqui, um porto que não é porto apenas da Tanzânia, é um porto que atende vários países daqui da região. Ao mesmo tempo, a China e a Índia não estão tão longe, como estão do Brasil. Portanto, sem deixarem de fazer os investimentos no Brasil, aumentar os investimentos de vocês, produzindo uma parte daquilo que vocês querem produzir aqui na Tanzânia, para aproveitar não apenas o mercado africano, mas para aproveitar o mercado chinês, o mercado indiano e uma parte do mercado asiático, que está mais próximo, sobretudo com os navios da Vale do Rio Doce passando por aqui e pegando parte da carga do que vocês vão produzir.

A segunda coisa que eu considero extremamente importante é que o século XXI vai exigir dos governantes e vai exigir dos empresários que a gente pense um pouco diferente da forma que a gente pensava no século XX. No mundo globalizado, a disputa está cada vez mais acirrada. Ninguém está esperando nenhum comprador passar na porta da sua casa para comprar o seu produto. Cada um de nós tem que sair cada vez mais, viajar cada vez mais, bater cada vez mais em portas diferentes tentando vender os nossos produtos, porque antes e depois de nós outros vendedores passarão vendendo os produtos.

Aí, é preciso que a gente discuta competitividade, é preciso que a gente discuta garantias jurídicas, é preciso que a gente discuta garantias dos investimentos que um empresário quer fazer em algum país.

Pois bem, a Tanzânia é um país que tem demonstrado garantias jurídicas e tem demonstrado o fortalecimento do processo democrático. Portanto, é um país que não coloca medo, e muito menos coloca em risco o capital investido por um empresário brasileiro ou por um empresário de qualquer país. Nós, então, só temos que levar em conta a nossa disposição e discutirmos as oportunidades que nós temos aqui nesta região de fazer com que os empresários brasileiros...

É importante dizer aos empresários da Tanzânia que oito anos atrás eu fazia provocação aos empresários brasileiros de que eles não teriam que ter medo de virar empresários multinacionais. Graças a Deus, hoje nós temos uma quantidade enorme de empresários brasileiros multinacionais, o que é motivo de orgulho para mim, como presidente, e motivo de orgulho para o Brasil, saber que nós temos bandeiras de empresas brasileiras hasteadas em vários países do mundo, ajudando no desenvolvimento de outros países.

Eu tenho um carinho especial pelo continente africano, por uma coisa muito simples, Presidente: é porque eu estou convencido de que o século XXI vai ser o século do crescimento dos países que não cresceram no século XX. Eu digo que será o século XXI o século da América Latina, América Central e Caribe, e será o século XXI o século do continente africano, levando em conta as particularidades de cada um.

Mas o dado concreto é que o mundo desenvolvido precisa parar de olhar para o seu próprio umbigo e começar a perceber que na medida em que ele ajude os países africanos ou os países latino-americanos a se desenvolverem, eles não estarão fazendo nenhum favor. Eles estarão criando mercado para os produtos que eles precisam vender porque senão, quando acontece uma crise, como aconteceu em 2008 e 2009, eles vão perceber que o mercado interno deles estava saturado. Então, é preciso criar novos mercados, e a África se apresenta como um mercado extraordinário.

Eu vou dar um exemplo, Presidente, de uma coisa real. Na crise econômica brasileira, quando o crédito desapareceu, no dia 22 de dezembro de 2008 eu fui para a televisão fazer apologia ao consumo. E por que eu fui fazer apologia ao consumo? Porque a imprensa brasileira e a imprensa mundial, elas detectavam uma retração no consumo mundial, e ao divulgar a retração elas criavam mais medo, a ponto de dizerem que os consumidores estavam com medo de consumir, perder o seu emprego e não poder pagar o que tinham comprado. Era esse o discurso durante todo o ano de 2008 e 2009. Então, no dia 22 de janeiro... No dia 22 de dezembro de 2008, eu fui para a televisão brasileira fazer um pronunciamento de oito minutos, para dizer ao povo trabalhador que ele tinha que consumir porque se ele não comprasse, com medo de perder o emprego e não poder pagar a dívida que ele tinha feito, ele correria muito mais risco se ele não comprasse. Se ele não comprasse, a fábrica não produzia, a loja não vendia, ele não consumia e ele não ia ter emprego de verdade. Então, a única chance que ele tinha era consumir com responsabilidade. Não consumir e endividar o seu futuro, como os americanos fizeram durante muito tempo, mas endividar o seu presente, com responsabilidade, comprando aquilo que era necessário para dentro de casa.

Eu vou lhes dar um dado que é muito importante para quem é economista neste mundo. Foram exatamente a classe D e a classe E, na parte mais pobre do Brasil, na região da Amazônia e na região do Nordeste, que consumiram mais do que as classes A e B da região mais rica do país. É por isso que eu digo que foram os pobres do Brasil que não deixaram o Brasil entrar na crise em que entrou a Europa e que não deixaram o Brasil entrar na crise em que entraram os Estados Unidos. Também, naquele momento, Presidente, nós provamos uma outra coisa. Nós acabamos com aquele mito de que o Estado era um dinossauro, de que o Estado não servia para nada, porque quando faltou crédito, foi o Estado que colocou crédito; quando os bancos não tinham dinheiro, foi o Estado que emprestou dinheiro para os bancos; quando os bancos não tinham financiamento, foi o Estado que comprou carteira de banco. Portanto, foi o Estado que assumiu a responsabilidade de reativar a economia brasileira, que foi a última a entrar na crise e a primeira a sair da crise.

Pois bem, eu trabalho com a certeza absoluta, Presidente, de que a África tem que tirar proveito desse momento. É por isso que eu viajo tanto o continente africano.

Vamos ver algumas coisas, primeiro, sobre a África. O que nós estamos assistindo é, na verdade, o renascimento de um continente que vive a esperança, de forma extraordinária, de crescimento econômico e de consolidação da democracia em quase todos os países africanos. Segundo, a África é um parceiro indispensável frente aos grandes desafios energéticos que o mundo vive. Eu participei da questão do clima em Copenhague, eu fui à COP-15. Tudo bem, Chissano? O nosso companheiro Chissano, ex-presidente de Moçambique. Está mais jovem, eu pensei que era o filho do Chissano.

Bem, eu fui a Copenhague, na COP-15, discutir a questão do clima, e o que é que nós assistimos lá? Por que é que não teve acordo em Copenhague? Não teve acordo porque os países ricos, sobretudo Europa e Estados Unidos, tentam jogar a responsabilidade de uma conta que nós não temos, para que a gente pague. Eles não levam em conta que os países industrializados, que poluem o mundo há muito mais tempo, têm mais responsabilidade de pagar a conta do que aqueles que começaram a se desenvolver agora. E o mundo pobre precisa tomar muito cuidado porque, agora, com o tal do sequestro de carbono e com os fundos que eles estão criando, a impressão que eu tenho é que eles estão querendo que a gente não se desenvolva, para deixar a nossa floresta em pé, para poder garantir que eles continuem se industrializando e se desenvolvendo. Essa discussão vai voltar muito forte em dezembro, na Cidade do México, parece que em Cancún, quando nós vamos fazer a COP-16.

E naquele momento, Presidente, o Brasil, assumiu a responsabilidade de, até 2020, a gente reduzir a emissão de gases de efeito estufa em até 39% e diminuir o desmatamento da Amazônia em 80%, ao passo que os Estados Unidos, ao passo que os Estados Unidos ofereceram como proposta reduzir o desmatamento, ou melhor, reduzir a emissão de gases de efeito estufa em apenas 4%, o que era inaceitável. E nós, países pobres e em desenvolvimento, não podemos trocar o nosso desenvolvimento para tentar sequestrar o carbono que eles estão jogando na atmosfera. Esse é um debate que vai ser muito forte daqui a alguns meses.

Mas não basta por aí. A África pode ser uma alternativa para oferecer a energia renovável que uma parte do mundo precisa, sobretudo, se levarmos em conta a quantidade de terra disponível para a agricultura ainda pouco explorada, e sem competir com a produção de alimentos. E o Brasil pode ser prova disso, porque nós somos grandes produtores de etanol, utilizamos apenas 1% da nossa terra agricultável para plantar etanol, e ainda temos 400 milhões de hectares agricultáveis para plantar o que quisermos plantar, preservando ainda 360 milhões de hectares que representam a nossa Amazônia.

Nós achamos que o continente africano pode se apresentar ao mundo como uma alternativa para suprir os países ricos da energia renovável que eles precisam e que não têm terra para plantar, e das oleaginosas que eles querem produzir fica muito mais caro do que o que nós poderemos produzir.

Eu estava dizendo ao presidente Kikwete que nós começamos um programa de plantar dendê, no estado do Pará, com duas funções. Primeiro, atender a nossa necessidade de biodiesel e, segundo, recuperar as terras degradadas do estado do Pará, inclusive numa parceria com a Galp portuguesa. Cada hectare, cada hectare de palma africana produz, em média, seis mil litros de óleo para produzir biodiesel. É, de todas as oleaginosas, a que mais produz litros por hectare, e é uma coisa natural aqui do continente africano e, portanto, é importante estudar o potencial e a possibilidade de fazer do dendê... óleo de palma.

Bem, além disso, o presidente Kikwete deve saber que nós montamos um escritório da Embrapa em Gana, na cidade de Acra, com o objetivo de pesquisar o território africano, e acho que 17 países já foram pesquisados. O que nós constatamos até agora é que a savana africana, ela tem as mesmas características do cerrado brasileiro, que 40 anos atrás era tido como terra imprestável e que hoje é a terra que mais produz grãos por hectare no mundo, não é apenas no Brasil. Nós achamos que uma parte da savana africana poderá ser a revolução agrícola do continente africano. Já temos experiências bem-sucedidas em alguns países, tem projeto em Moçambique, tem projeto em Angola, estamos trabalhando projeto com a Suécia aqui em Zâmbia... aqui na Tanzânia, e poderemos fazer outros projetos na medida em que a gente vá construindo parceria com outros países que possam financiar.

Mais importante ainda é que nós percebemos uma coisa extraordinária que está acontecendo: finalmente, o Brasil está descobrindo a África e, finalmente, a África está descobrindo o Brasil. A verdade é que tanto a África nasceu olhando para a Europa, como o Brasil nasceu olhando para a Europa e os Estados Unidos. Nós demoramos muito a começar a discutir as nossas similaridades, as nossas potencialidades, porque todos nós nos achávamos muito pobres e todos nós achávamos que não tínhamos nada a oferecer uns aos outros.

Eu quero dizer a vocês que o Brasil, finalmente, deixou de ser um país receptor, que se achava um país muito pobre, que vivia pedindo dinheiro à ONGs, como pedia um país de três milhões de habitantes. O Brasil está assumindo a sua vocação de país em desenvolvimento, o país tem bancos importantes. Nós aprovamos estender para o continente africano e para o continente latino-americano as mesmas linhas de financiamento de máquinas agrícolas, equipamentos, ônibus e caminhões, que oferecemos para os produtores brasileiros, com linha de crédito especial. Estamos apenas em tratativas com o Banco Africano para saber quem é que vai financiar isso, quem é que vai fazer os empréstimos, e isso está numa fase avançada entre BNDES e o Banco da União Africana... – o BAD [Banco Africano de Desenvolvimento] –, para ver se a gente começa esse financiamento.

Quando nós chegamos à Tanzânia... É importante a imprensa brasileira anotar algumas coisas. Anotar, por exemplo, que a Tanzânia teve um dos melhores desempenhos econômicos da África subsaariana nos últimos dez anos; cresceu 6,3% entre [19]98 e 2007. Impulsionada pelos setores da indústria e de serviços, em 2009 cresceu 4,9%. A Tanzânia, junto com o Brasil, foram dos países que mais rapidamente superaram a crise econômica.

Agora, vejam que importante para os empresários brasileiros: a Tanzânia possui posição privilegiada, próxima a grandes mercados emergentes da Ásia, China, Índia e Indonésia, e é a porta de entrada de produtos para o interior africano, principalmente Uganda, Ruanda, Burundi e República Democrática do Congo, Zâmbia e o Malawi. Tem uma posição estratégica, e essa posição se reflete no aumento do seu comércio global, que cresceu 29% em 2008, chegando a US$ 9,5 bilhões. Em 2007, chegou a US$ 7,4 bilhões. O comércio bilateral com o Brasil ainda é pequeno – cresceu muito – em 2009, aumentou 67%, chegando a US$ 31 milhões; em 2008, era 18,7 milhões de reais... bem, dólares.

Agora, tudo isso só nos lembra o potencial que o Brasil está perdendo, de procurar novos mercados; que as nossas empresas estão perdendo, em procurar novos mercados. Eu não sei se aqui na Tanzânia vocês utilizam a palavra “camelô” ou a palavra o “turco”, aquele cidadão que coloca um monte de coisas embaixo do braço e sai vendendo de casa em casa, batendo palmas? “Matinga?” “Matinga”. Pois bem, eu tenho chamado a atenção dos empresários brasileiros que nós temos que funcionar como os “matingas”. Ora, por quê? Porque os produtos que a Tanzânia produz, a não ser matéria-prima, a não ser alimento, ou os produtos que o Brasil produz, eles têm menos penetração nos países ricos, que produzem mais do que nós, com mais tecnologia do que nós. Então, onde nós temos que vender os nossos produtos? É em lugares que têm a mesma realidade nossa e a mesma potencialidade nossa. Eu digo o seguinte: eu nunca vi um “matinga” ir vender o seu produto na porta de um rico, não vai. Ele não vai à Avenida Paulista, em São Paulo, vender; ele não vai na Avenida Copacabana, ele vai na periferia, ele vai às pessoas que podem comprar aquele produto.

Então, o desafio que nós temos – Brasil, América do Sul e continente africano – é descobrir as nossas potencialidades, é descobrir aquilo que um pode fazer pelo outro.

Eu vou contar uma história, Presidente, que aconteceu pouco tempo atrás num país irmão. A Vale do Rio Doce estava disputando uma mina de ferro no Gabão, no Gabão – isso, em 2003, 2004 –, e a Vale do Rio Doce perdeu essa mina de ferro, perdeu. Os chineses ganharam a mina de ferro. Nada contra os meus amigos chineses. Pelo contrário, são grandes parceiros nossos e queremos manter a nossa parceria estratégica. Mas a verdade é que às vezes eles ganham uma mina e trazem [levam] todos os chineses para trabalhar naquela mina, e ficam sem gerar oportunidade de trabalho para os trabalhadores do país.

Nós achamos que a nossa matéria-prima... Veja, hoje... prestem atenção numa coisa que eu vou dizer: nas próximas discussões do G-20, nas próximas discussões do G-20 os países ricos vão levantar os preços das commodities, vão levantar os preços daquilo que os países pobres têm e que eles não têm, e eles vão querer tabelar os preços. Alguns já tabelam na Bolsa de Chicago, alguns já tabelam. Mas só ficar prestando atenção, Presidente, que eles vão tentar criar confusão com os países pobres que têm minério para exportar, porque eles querem controlar os preços. Agora, não querem que nós controlemos os preços dos produtos manufaturados que eles exportam. Se eles acreditassem realmente em livre mercado, nós teríamos feito o acordo da Rodada de Doha. Por que nós não fizemos o acordo da Rodada de Doha, onde o que nós queríamos era que os países mais pobres ganhassem alguma coisa? É por isso que o Brasil abriu processo contra os Estados Unidos na questão do algodão. Não foi para proteger o Brasil. O Brasil é competitivo, o Brasil não precisava fazer aquela briga na OMC. Aquela briga foi feita para proteger países africanos que produzem cem toneladas de algodão. Nós temos países, aqui na África, que o que eles exportam são 50 toneladas de castanha! Se nós não tratarmos de proteger esses mais pobres, como é que vai ficar o comércio?

Então, eu penso que o Brasil e o continente africano, mais os latino-americanos, precisamos ter em conta que nós temos coisas em comum e que nós precisamos levar mais a sério. Uma delas é a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Não é possível que o mundo decisório das grandes questões mundiais esteja baseado ainda na geopolítica de 1948 e não na geopolítica de 2010! Não é possível que tenha dúvida se vai entrar um país africano, dois ou três. Que entrem quantos forem necessários, mas que a África esteja representada condignamente. Que entrem da América do Sul, que entre a Índia. Agora, qual é o critério de dizer quem pode entrar e quem não pode entrar? Qual é o critério de dizer quem é importante e quem não é importante?

Presidente, um mês atrás o Conselho de Segurança não conseguia convencer o Irã a se sentar à mesa de negociação. O Brasil e a Turquia acreditavam que era possível colocar o Irã à mesa de negociação. Fizemos 18 horas de conversa, quatro viagens do Celso a Istambul e ao Irã. Quando nós fizemos o acordo, e o acordo retratava exatamente o que o Conselho de Segurança da ONU queria desde outubro do ano passado, o que aconteceu? Eles disseram que não valia e, ainda assim, mantiveram as sanções... aumentaram as sanções sobre o Irã, quando o Irã concordou com tudo, inclusive com o mesmo conteúdo da carta assinada pelo Presidente dos Estados Unidos.

Então, companheiros e companheiras, o comércio e a política não podem continuar sendo feitos da forma que foram feitos. Eu agora participo do G-20, Chissano, virei importante, virei importante. A impressão que eu tenho é que se a gente não tomar cuidado a crise vai ficar nas nossas costas, a crise vai ficar nas costas dos países pobres, porque nas reuniões que a gente faz ninguém quer discutir a situação da Alemanha, a situação da França, a situação dos bancos americanos, a situação dos bancos... ninguém quer discutir. O FMI, que sabia tudo quando o Brasil devia, não sabe nada agora. O Banco Mundial, que dava palpite sobre todos os países africanos, não dá um palpite sobre a crise na União Europeia. E a gente fica se perguntando o seguinte: onde estão as lideranças políticas, que não tomam as decisões que tem que tomar?

O desafio, Presidente, que está colocado para nós é que nenhum país africano, nenhum país brasileiro... nenhum país da América Latina, nenhum país do Caribe deve aceitar as mesmas regras do jogo que nós vivemos no século XX. Nós queremos mais comércio, nós queremos mais democracia e nós queremos mais participação, como forma de enfrentar a crise econômica.

Daí porque os meus agradecimentos aos empresários brasileiros que vieram aqui. Espero que vocês façam bons negócios, descubram bons parceiros. Nós vamos receber, no mês de junho... de outubro, uma delegação aqui da Tanzânia para discutir a questão dos biocombustíveis. Depois, a Petrobras está fazendo um acordo aqui. Depois, vamos fazer um acordo trilateral – Suécia, Brasil e Tanzânia. E, se Deus quiser, nós vamos aprofundar a discussão sobre os biocombustíveis aqui no continente africano e, sobretudo, na Tanzânia.

Muito obrigado.

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